CAMINHÕES VAZIOS GERAM PREJUÍZO BILIONÁRIO E PRESSIONAM O FRETE NO BRASIL

por Setceb | maio 28, 2026 | Uncategorized

Enquanto transportadoras buscam aumentar produtividade e reduzir custos operacionais, milhares de caminhões continuam circulando vazios pelas rodovias brasileiras após concluírem entregas. O cenário amplia desperdícios logísticos, eleva despesas do setor e impacta diretamente o valor final do frete no país.

O problema não é exclusivo do Brasil. Segundo levantamento divulgado pela Forbes, com base em dados da Uber Freight, cerca de 35% dos caminhões no mundo rodam sem carga durante o reposicionamento para novas operações. O retorno vazio gera aumento de gastos com combustível, manutenção, mão de obra e emissões, custos que acabam sendo repassados para toda a cadeia produtiva.

Dados da empresa de tecnologia Flock Freight mostram ainda que 77% dos embarcadores já enxergam o transporte como um dos principais fatores de pressão sobre os preços de alimentos e bebidas.

No Brasil, porém, o impacto tende a ser ainda maior devido à forte dependência do modal rodoviário e à concentração das rotas logísticas. O problema aparece com força no agronegócio, principalmente em operações que levam cargas do Centro-Oeste para os portos e retornam vazias para o interior. Segundo a publicação da Forbes, esse retorno ocioso pode elevar os custos logísticos entre 40% e 50%.

Para Pedro Prado, CEO da LogShare, a ociosidade no transporte rodoviário já representa um prejuízo bilionário no país. Segundo ele, aproximadamente 38% dos caminhões circulam vazios no Brasil.

Em entrevista à MundoLogística, o executivo afirmou que a ineficiência operacional pode gerar perdas anuais entre R$ 100 bilhões e R$ 200 bilhões.

“A gente está falando de um mercado de R$ 600 bilhões a R$ 800 bilhões em transporte. Então, 38% de ineficiência traz algo da ordem de R$ 100 bilhões a R$ 200 bilhões anuais desperdiçados nas estradas, porque, no fim, os caminhões, em vez de transportar carga, estão transportando vento”, declarou.

Fragmentação amplia desperdícios

Segundo Prado, a falta de integração entre empresas e transportadoras é um dos principais fatores por trás da baixa eficiência logística no Brasil.

“O nosso país é bastante fragmentado no sentido de polos industriais e polos expedidores de carga. Também é fragmentado em relação às empresas: são mais de 200 mil transportadoras ETC e cerca de 900 mil transportadores autônomos”, explicou.

O executivo também aponta que muitas empresas ainda operam de forma isolada, dificultando o compartilhamento de informações e oportunidades de carga.

“A gente tem inúmeras indústrias espalhadas pelo Brasil inteiro, com bilhões em fretes sendo transacionados, mas essas empresas não se comunicam. Os dados não se falam”, afirmou.

Na avaliação dele, o maior gargalo está justamente no frete de retorno vazio, conhecido no setor como operação “batendo lata”.

Backhaul surge como alternativa

Para enfrentar o problema, empresas têm apostado em modelos de compartilhamento de malha e operações de backhaul, que aproveitam o retorno dos caminhões para transportar novas cargas.

Um dos exemplos citados pelo setor é a operação desenvolvida entre PepsiCo, Leroy Merlin, LogShare e LOTS Group. O projeto conecta fluxos logísticos entre São Paulo e Curitiba para evitar que veículos retornem vazios.

No modelo, caminhões que realizam entregas da Leroy Merlin passam a transportar cargas da PepsiCo na viagem de retorno. Segundo a LogShare, a integração gerou redução de cerca de 20% nos custos de frete e diminuição de 40% nas emissões da operação.

Além da otimização de rotas, o projeto utiliza caminhões movidos a gás natural, ampliando os ganhos ambientais.

Caminhão parado reduz faturamento

Além do retorno vazio, o setor também enfrenta perdas relacionadas à baixa produtividade operacional. Longos períodos de espera para carga e descarga, restrições operacionais e feriados prolongados reduzem a utilização da frota.

Para Leonardo Buzin, CEO da Buzin Transportes, cada dia parado representa perda direta de faturamento.

“O que acontece no transporte é que o dia perdido não volta mais. Quanto mais o caminhão produz, mais ele fatura e melhor fica o resultado no fim do mês”, afirmou.

Segundo ele, um rodotrem pode deixar de faturar cerca de R$ 4 mil por dia sem operação.

“Os rodotrens têm uma meta de faturamento de cerca de R$ 120 mil por mês. Então, cada dia que ele deixa de produzir representa aproximadamente R$ 4 mil”, explicou.

O executivo afirma que, em períodos de feriados prolongados, a estratégia das transportadoras é tentar manter os veículos carregados e em circulação para minimizar as perdas operacionais.