A combinação entre juros elevados, tensões geopolíticas e distorções no transporte rodoviário tem reduzido significativamente a capacidade de investimento do agronegócio brasileiro. O cenário já impacta diretamente a demanda por caminhões e contribui para o envelhecimento da frota no país.
Segundo Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja Mato Grosso, o custo financeiro tem consumido grande parte da rentabilidade do produtor. “O que seria lucro hoje está sendo direcionado para o pagamento de juros”, afirmou. Com isso, decisões de investimento, como a aquisição de veículos ou ampliação da estrutura, acabam sendo adiadas.
Em um país altamente dependente do transporte rodoviário, a pressão aumenta em períodos de safra. A combinação entre produção elevada, déficit de armazenagem e baixa oferta ferroviária intensifica a demanda por caminhões, especialmente nos picos de colheita. Ainda assim, o acesso ao crédito limitado impede que produtores invistam na compra de veículos próprios.
Esse cenário contribui para o envelhecimento da frota. De acordo com o setor, desde 2023 os investimentos vêm sendo reduzidos, ampliando uma defasagem que já era considerada preocupante.
Outro fator que pesa sobre os custos é a política de piso mínimo do frete. Na avaliação da Aprosoja, a medida, criada em 2018, não acompanhou as mudanças do mercado e passou a gerar distorções. O modelo atual encarece o transporte, limita a negociação e reduz ainda mais as margens do produtor rural.
A situação é agravada por gargalos históricos, como a falta de armazenagem. Em estados como Mato Grosso, a capacidade disponível não atende nem metade da produção, o que obriga o escoamento concentrado no pico da safra e eleva ainda mais o custo do frete.
Além disso, mudanças na dinâmica do frete de retorno também impactam os custos. Operações que antes ajudavam a equilibrar o transporte de insumos perderam eficiência, contribuindo para o aumento geral das despesas logísticas.
No cenário internacional, as tensões geopolíticas adicionam novas pressões. A instabilidade no Oriente Médio afeta diretamente o fornecimento de fertilizantes, já que grande parte dos insumos utilizados no Brasil passa por regiões estratégicas como o Estreito de Ormuz. Ao mesmo tempo, conflitos globais também influenciam o preço do petróleo, elevando o custo do diesel.
O combustível, que já representa uma parcela significativa dos custos operacionais, impacta toda a cadeia, desde a produção no campo até o transporte da safra. Esse aumento pressiona ainda mais a rentabilidade do produtor.
Mesmo com programas de incentivo, o crédito continua sendo um entrave. Relatos do setor indicam dificuldade no acesso aos recursos, o que faz com que a prioridade seja o custeio da safra. Investimentos estruturais, como renovação de frota e expansão da armazenagem, ficam em segundo plano.
A redução da rentabilidade reforça esse movimento. Em alguns casos, produtores chegaram a registrar prejuízos recentes, enquanto a margem atual é considerada baixa. Diante disso, a estratégia predominante tem sido cortar custos e adiar decisões.
Apesar da expectativa de safra recorde, o cenário atual rompe uma lógica histórica: produção elevada já não garante aumento de investimentos. A tecnificação ajudou a manter a produtividade, mas não tem sido suficiente para sustentar novas aplicações de capital.
Outro ponto de atenção é a dependência externa no setor de energia. O Brasil ainda importa parte relevante do diesel consumido, o que aumenta a exposição à volatilidade internacional e impacta diretamente os custos logísticos.
Diante desse conjunto de fatores, o setor enfrenta um ciclo mais longo de pressão. A combinação entre custos elevados, limitações estruturais e crédito restrito tende a afetar não apenas o agronegócio, mas toda a economia, refletindo no preço dos alimentos e no custo do transporte.