A utilização de Arla 32 sem procedência comprovada continua sendo um dos principais riscos para caminhões equipados com sistema de Redução Catalítica Seletiva (SCR). Embora o preço mais baixo possa parecer vantajoso, especialistas alertam que o uso de um produto adulterado pode gerar prejuízos elevados, comprometer componentes do veículo e até interromper a operação da frota.
Segundo Gilles-Laurent Grimberg, especialista da Actioil, o problema não necessariamente aumentou nos últimos anos, mas ganhou mais visibilidade devido ao fortalecimento da fiscalização e ao crescimento da frota equipada com tecnologia SCR.
“Quanto maior o número de veículos que utilizam Arla 32, maior também o interesse de fabricantes clandestinos em explorar esse mercado”, explica.
O que caracteriza um Arla 32 adulterado?
As irregularidades podem ocorrer de diversas formas. Entre as mais comuns estão a diluição do produto com água, o uso de água que não passou pelo processo adequado de desmineralização e a utilização de ureia incompatível com as especificações exigidas para aplicações automotivas.
Além disso, falhas durante a fabricação, armazenamento ou transporte também podem comprometer a qualidade do reagente.
Como o sistema SCR trabalha com uma solução altamente controlada, pequenas alterações na composição já são suficientes para afetar seu desempenho.
Sistema de emissões pode sofrer danos em vários componentes
Quando o reagente apresenta impurezas ou concentração inadequada, o processo de redução dos óxidos de nitrogênio (NOx) deixa de ocorrer corretamente. Com o tempo, resíduos se acumulam no sistema e provocam falhas em diferentes componentes.
Entre as peças mais suscetíveis aos danos estão:
bomba do Arla 32;
filtros;
módulo dosador;
injetor;
sensores de NOx;
sensores de temperatura;
catalisador SCR.
Ao identificar falhas, a central eletrônica pode reduzir automaticamente a potência e o torque do caminhão para proteger o conjunto mecânico.
Alertas no painel não devem ser ignorados
Antes que os danos se tornem mais severos, o veículo costuma apresentar alguns sinais de que há problemas no sistema de pós-tratamento.
Os sintomas mais frequentes incluem:
luz de advertência do sistema de emissões;
mensagens de erro relacionadas ao SCR ou ao Arla 32;
perda de desempenho;
consumo irregular do reagente;
falhas recorrentes registradas pela eletrônica do veículo.
De acordo com Grimberg, insistir em continuar a viagem sem investigar a origem desses alertas pode agravar significativamente o problema.
Um único abastecimento pode gerar prejuízos elevados
Mesmo um único abastecimento com produto contaminado pode comprometer o funcionamento do sistema, principalmente quando há presença de óleo, diesel, minerais ou outras substâncias inadequadas.
Dependendo da gravidade da contaminação, pode ser necessária a substituição de diversos componentes, como sensores, bomba, módulo dosador, injetores e até do catalisador.
Segundo o especialista, em situações mais graves o custo do reparo pode representar entre 25% e 30% do valor do caminhão.
Além do impacto financeiro, a paralisação do veículo compromete prazos de entrega, reduz a produtividade da frota e aumenta os custos operacionais da transportadora.
Como reduzir os riscos na compra
Para evitar problemas, a recomendação é adquirir Arla 32 apenas de empresas confiáveis e exigir nota fiscal da compra.
Também é importante verificar informações como fabricante, número do lote, prazo de validade e as condições da embalagem. Outra orientação é confirmar se o produtor possui registro regular junto ao Inmetro.
Segundo Grimberg, preços muito abaixo da média de mercado merecem atenção, especialmente quando não há informações que garantam a rastreabilidade do produto.
Armazenamento também influencia a qualidade
Mesmo quando o Arla 32 é original, a forma de armazenamento pode comprometer suas características.
O produto deve permanecer protegido da luz solar, em ambiente ventilado, dentro do prazo de validade e acondicionado em recipientes próprios, livres de resíduos de óleo, diesel, poeira ou qualquer outro contaminante.
Temperaturas elevadas também aceleram a degradação da solução e podem alterar sua composição química.
O que fazer em caso de suspeita
Caso haja suspeita de abastecimento com Arla 32 adulterado, a orientação é interromper imediatamente a utilização do produto e procurar uma oficina especializada antes de continuar a operação.
Também é recomendável guardar a nota fiscal, a embalagem, o número do lote e, sempre que possível, uma amostra do reagente para eventual análise.
A ocorrência pode ser comunicada ao fornecedor e registrada junto ao Inmetro ou ao Instituto de Pesos e Medidas (IPEM) do estado.
O especialista também reforça que remover ou modificar o sistema SCR para eliminar o uso de Arla 32 é uma prática proibida. Além das penalidades administrativas, a alteração pode resultar em multas, apreensão do veículo e responsabilização por crime ambiental.