A entrada em vigor das atualizações da NR-1 colocou o transporte rodoviário de cargas diante de uma mudança que tende a impactar diretamente a rotina operacional das empresas. Tradicionalmente focado em riscos ligados à carga, roubos, acidentes e segurança viária, o setor agora passa a ter de incluir também fatores humanos no gerenciamento de riscos ocupacionais.
Questões como pressão por prazo, excesso de jornada, fadiga, desgaste emocional, assédio e conflitos organizacionais passam a integrar oficialmente os processos de monitoramento e prevenção dentro das transportadoras.
A NR-1 é a norma regulamentadora que estabelece as diretrizes gerais de saúde e segurança do trabalho no Brasil. Com a atualização que entrou em vigor neste ano, o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) passou a exigir que empresas identifiquem, avaliem e monitorem também os chamados riscos psicossociais relacionados ao ambiente de trabalho.
O tema foi debatido durante a live “Muito além da Norma: NR-1 na prática”, promovida pelo Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região (Setcesp), reunindo especialistas das áreas jurídica, saúde ocupacional, gestão de pessoas e cultura organizacional para discutir os impactos da nova regulamentação sobre o transporte rodoviário de cargas.
O debate acontece em um momento de avanço dos afastamentos relacionados à saúde mental no Brasil. Dados da Previdência Social apontam que, em 2025, mais de 546 mil benefícios foram concedidos por transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,6% em relação ao ano anterior. Os custos desses afastamentos superaram R$ 950 milhões no período.
No transporte rodoviário, especialistas avaliam que fatores historicamente presentes na operação — como jornadas extensas, pressão operacional, insegurança nas estradas, cobrança constante e longas esperas em centros de distribuição — passam agora a receber maior atenção das áreas de RH, jurídico e segurança do trabalho.
FISCALIZAÇÃO JÁ PODE AUTUAR EMPRESAS
Segundo Caroline Duarte, coordenadora jurídica do Setcesp, as novas exigências já podem ser fiscalizadas integralmente pelos órgãos competentes. Ela explicou que os riscos psicossociais agora fazem parte obrigatória do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
Entre os fatores que passam a exigir acompanhamento formal estão sobrecarga de trabalho, excesso de intensidade nas atividades, conflitos interpessoais, assédio, violência no ambiente corporativo, pressão psicológica e exposição constante a situações de estresse.
“O gerenciamento de riscos ocupacionais não se resume à elaboração de documentos. Não basta apenas ter um material formal”, afirmou Caroline durante a live.
Segundo ela, empresas que não incorporarem esses riscos aos programas internos poderão sofrer autuações, principalmente em casos de ausência de critérios técnicos de avaliação, inexistência de planos de ação ou falta de comprovação de monitoramento das medidas adotadas.
A especialista destacou ainda que a adequação à NR-1 exigirá integração entre áreas como RH, jurídico, segurança do trabalho, lideranças operacionais e direção das empresas.
PRESSÃO OPERACIONAL ENTRA NO CENTRO DO DEBATE
Para os especialistas participantes da live, um dos principais impactos da nova NR-1 sobre o transporte está diretamente ligado à forma como as operações são organizadas dentro das empresas.
O psicólogo organizacional Micael Vital afirmou que muitos riscos psicossociais surgem justamente da rotina operacional do setor. “Os riscos nascem na pressão constante, no excesso de jornada, em metas incompatíveis, comunicação agressiva e ausência de escuta”, afirmou.
Segundo ele, práticas historicamente naturalizadas no transporte ainda fazem parte da cultura de muitas operações. “Muitas vezes o colaborador novo já chega ouvindo que precisa se acostumar porque ‘aqui é assim mesmo’”, comentou.
Na avaliação do especialista, a nova NR-1 deve forçar uma revisão mais profunda dessas práticas. “A liderança pode ser guardiã dessa cultura ou reforçar ainda mais o adoecimento”, disse.
O debate também abordou o desgaste emocional acumulado da profissão de motorista. Entre os fatores citados estão isolamento, insegurança nas estradas, pressão por entregas, trânsito intenso, longos períodos fora de casa e esperas prolongadas para carga e descarga.
Segundo Vital, esse cenário também ajuda a explicar a crescente dificuldade do setor em atrair novos motoristas profissionais. “Muitos cresceram vendo pais e familiares sofrendo na profissão, sendo desrespeitados e vivendo sob pressão constante”, afirmou.
ESPERA EM CDS E PRESSÃO EM TEMPO REAL GANHAM ATENÇÃO
Outro ponto discutido durante a live foi o impacto operacional das longas esperas em centros de distribuição e do aumento da pressão em tempo real sobre os motoristas.
Os participantes destacaram que muitos profissionais permanecem horas aguardando carregamento ou descarregamento sem estrutura adequada de descanso, alimentação ou suporte operacional.
Também entrou no debate o avanço das tecnologias de rastreamento, telemetria e monitoramento contínuo das viagens, que ampliaram o controle operacional, mas também elevaram a pressão psicológica sobre os profissionais da operação.
A avaliação dos especialistas é que a NR-1 tende a ampliar a discussão sobre os limites entre produtividade, monitoramento e saúde mental no ambiente logístico.
“NÃO BASTA PALESTRA MOTIVACIONAL”
Durante a transmissão, a psicóloga Valéria Gonçalves alertou que muitas empresas ainda enxergam a adequação à NR-1 apenas como preenchimento de documentos ou campanhas superficiais de RH.
Segundo ela, o processo exige observação real da rotina operacional e análise específica dos riscos enfrentados por cada área da empresa, incluindo administrativo, operação logística e motoristas.
“Fazer apenas palestras vai resolver? Precisaremos rever toda essa dinâmica e o fluxo de trabalho”, afirmou Micael Vital ao comentar situações de sobrecarga e assédio operacional.
Os participantes defenderam que o gerenciamento dos riscos psicossociais exigirá ações permanentes de escuta, treinamento de lideranças, revisão operacional e monitoramento contínuo do ambiente de trabalho.
IMPACTO VAI ALÉM DA ÁREA TRABALHISTA
A implementação da NR-1 também tende a ampliar os desafios para pequenas e médias transportadoras, que frequentemente possuem estruturas mais enxutas de RH, segurança do trabalho e apoio psicológico.
Durante a live, representantes do setor relataram insegurança sobre como medir riscos psicossociais, criar indicadores e estruturar ações preventivas consistentes dentro das operações.
O encontro também apresentou exemplos práticos de adaptação. Alda Akemi, gestora de RH da ANR Logística, afirmou que a empresa alcançou cerca de 80% de adesão dos colaboradores no processo de diagnóstico psicossocial após ações internas voltadas à criação de confiança e confidencialidade.
Já Caio Carelli, executivo de RH da Bros Logística, destacou a importância de integrar tecnologia, cultura organizacional e gestão para transformar as exigências da NR-1 em ações efetivas dentro das operações.
Na avaliação dos participantes, o impacto da nova NR-1 vai além das obrigações jurídicas e trabalhistas, atingindo diretamente produtividade, retenção de profissionais e eficiência operacional.
O transporte rodoviário de cargas, historicamente concentrado na gestão do risco da carga e da frota, passa agora a ser pressionado a olhar também para os impactos humanos da logística.