CRÉDITO SUBSIDIADO PARA RENOVAÇÃO DE FROTA ACENDE ALERTA SOBRE ENDIVIDAMENTO NO TRANSPORTE RODOVIÁRIO

por Setceb | maio 28, 2026 | Uncategorized

O novo ciclo de crédito subsidiado para renovação de frota abriu uma oportunidade importante para o setor de transporte rodoviário em meio ao cenário ainda marcado por juros elevados. Com R$ 21,2 bilhões disponíveis na nova etapa do programa Move Brasil, por meio da linha BNDES Renovação de Frota, transportadoras voltaram a intensificar negociações para aquisição de caminhões, ônibus, implementos rodoviários e veículos comerciais. Em algumas instituições financeiras, os recursos já vêm sendo consumidos rapidamente.

Apesar do movimento positivo, especialistas alertam para um risco crescente dentro do próprio setor. Parte significativa das empresas interessadas em renovar a frota já opera com margens reduzidas, fluxo de caixa pressionado e elevado nível de endividamento.

Em entrevista à Agência Transporte Moderno, o advogado Gustavo Maffioletti, sócio fundador da Mafiolletti & Arndt Advogados, afirmou que o crédito subsidiado pode acabar funcionando apenas como um alívio temporário para empresas financeiramente fragilizadas, sem necessariamente gerar aumento de produtividade.

“O crédito barato não resolve uma operação que já nasceu desequilibrada. Muitas empresas acreditam que colocar mais caminhões na estrada automaticamente aumenta resultado. Mas, se o frete está defasado, o prazo de recebimento é longo e a margem já foi comprimida pelos custos, o financiamento pode apenas ampliar o problema”, avaliou.

Dados da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef) reforçam a preocupação. A inadimplência nas operações corporativas de financiamento de veículos voltou a crescer ao longo de 2025. Na carteira de CDC para pessoa jurídica, os atrasos entre 15 e 90 dias passaram de 4,1% em dezembro de 2024 para 4,9% em dezembro de 2025. Já no leasing corporativo, a inadimplência subiu de 0,6% para 1,5% no mesmo período.

O cenário reflete um ambiente de juros elevados, aumento dos custos operacionais e desaceleração econômica, fatores que pressionam especialmente transportadoras e frotistas, altamente dependentes de financiamento para renovação de frota.

Segundo Maffioletti, o transporte rodoviário brasileiro passou por uma transformação estrutural nos últimos anos. Os principais custos da operação, como diesel, pneus, peças, manutenção, pedágio e mão de obra, acumularam alta próxima de 60% nos últimos cinco anos. O frete, porém, avançou apenas entre 30% e 35%, reduzindo drasticamente a rentabilidade média das empresas.

“O setor operava historicamente com margens próximas de 12%. Hoje, uma operação considerada muito bem estruturada trabalha perto de 5%”, explicou o advogado.

A situação se agrava em um mercado altamente pulverizado, com excesso de oferta de transporte e forte dependência comercial de grandes embarcadores. Muitas transportadoras acabam financiando seus próprios clientes ao suportarem prazos longos de pagamento enquanto mantêm despesas operacionais imediatas, como combustível, pedágio, manutenção, seguro e folha de pagamento.

“Quem define a regra muitas vezes é o embarcador. Existe uma dependência muito grande de poucos clientes. A transportadora assume financiamento, amplia estrutura para atender determinada operação e depois fica presa àquele contrato, mesmo sem margem adequada”, afirmou.

Outro ponto de preocupação é o crescimento sem planejamento financeiro ou gestão profissionalizada. Para o especialista, o setor vive uma mudança cultural importante, em que não basta mais crescer em faturamento — é necessário preservar geração de caixa e rentabilidade operacional.

O aumento dos pedidos de recuperação judicial no país também evidencia o ambiente de pressão financeira enfrentado pelas empresas. Dados da Serasa Experian mostram que o Brasil registrou quase 2.500 pedidos de recuperação judicial em 2025, o maior patamar da série recente.

Segundo o advogado, muitos financiamentos contratados entre 2022 e 2023 começaram agora a entrar na fase mais pesada de amortização, levando empresas a renegociarem parcelas ou buscarem proteção judicial.

“Existe hoje uma banalização perigosa da recuperação judicial em alguns segmentos. A RJ é importante e cumpre um papel legítimo de preservação da empresa, mas ela não cura uma operação inviável”, alertou.

Apesar do cenário desafiador, Maffioletti avalia que o Move Brasil pode representar uma oportunidade estratégica para empresas organizadas financeiramente e com boa gestão operacional.

“Transportadoras com boa gestão de caixa, contratos equilibrados, política de reajuste de frete e controle de custos tendem a capturar ganhos relevantes com renovação de frota, sobretudo pela redução de manutenção, maior eficiência energética e ganho operacional”, concluiu.

Na avaliação do especialista, o setor de transporte entra em uma nova fase, em que a governança financeira passa a ser tão importante quanto a capacidade operacional. “O caminhão continua sendo o ativo central do transporte. Mas hoje o diferencial competitivo está cada vez mais na gestão.”