O transporte rodoviário segue como a principal base da logística brasileira, sendo responsável por cerca de 65% da movimentação de cargas no país, de acordo com a Confederação Nacional do Transporte. Nesse cenário, qualquer oscilação no preço do diesel tem impacto direto nas operações, já que o combustível pode representar até 40% dos custos das transportadoras.
Para o advogado especialista em logística, Cristiano Baratto, a forma como os contratos são estruturados entre transportadoras, embarcadores e demais agentes da cadeia é determinante para definir quem absorve essas variações.
Contratos nem sempre acompanham a realidade do setor
Segundo o especialista, um dos principais problemas está no desalinhamento entre os contratos e a dinâmica operacional do transporte. Em muitos casos, não há mecanismos claros de reajuste ou reequilíbrio econômico diante de aumentos relevantes de custos, como os do diesel.
Na prática, isso acaba deixando as transportadoras mais expostas financeiramente, obrigadas a absorver despesas não previstas. Situações comuns do dia a dia ilustram esse cenário: reajustes no combustível sem repasse contratual, conflitos sobre responsabilidade em casos de roubo de carga e penalidades por atrasos causados por fatores externos, como as condições das rodovias.
Infraestrutura precária agrava o cenário
Além da pressão dos custos, o setor ainda convive com gargalos estruturais importantes. Levantamento da própria Confederação Nacional do Transporte aponta que mais de 60% das rodovias brasileiras apresentam condições consideradas regulares, ruins ou péssimas.
Esse cenário impacta diretamente a produtividade, aumenta o tempo de viagem e eleva o desgaste dos veículos, pressionando ainda mais os custos operacionais — especialmente em períodos de maior demanda, como o escoamento de safras agrícolas.
Cenário internacional aumenta a incerteza
No ambiente externo, fatores geopolíticos também contribuem para a instabilidade. As tensões no Oriente Médio seguem influenciando o mercado global de energia, trazendo volatilidade ao preço do diesel.
Para as empresas de transporte, isso significa lidar simultaneamente com aumento de custos e menor previsibilidade, o que dificulta o planejamento e a gestão financeira das operações.
Estrutura de custos concentrada aumenta vulnerabilidade
A dependência de poucos componentes-chave torna o setor ainda mais sensível a variações. Dados da Confederação Nacional do Transporte mostram como os principais custos estão distribuídos:
Diesel: entre 30% e 40%
Manutenção da frota: de 15% a 20%
Mão de obra: de 15% a 20%
Pedágios: de 5% a 10%
Seguros: de 5% a 10%
Essa concentração faz com que qualquer alteração relevante — principalmente no combustível — tenha efeito imediato sobre a rentabilidade das operações.
Previsibilidade depende de estratégia e contrato
Diante desse cenário, a competitividade no transporte rodoviário de cargas não depende apenas de eficiência operacional. A forma como contratos são estruturados passa a ser um fator estratégico para garantir equilíbrio financeiro e sustentabilidade do negócio.
Sem mecanismos claros de distribuição de riscos e atualização de valores, empresas tendem a operar com margens cada vez mais pressionadas, reforçando a necessidade de profissionalização na gestão contratual e financeira do setor.