PASSIVOS TRABALHISTAS AVANÇAM E VIRAM RISCO ESTRUTURAL NO TRANSPORTE RODOVIÁRIO DE CARGAS

por Setceb | abr 10, 2026 | Uncategorized

Responsável por mais da metade da movimentação de mercadorias no país, o transporte rodoviário de cargas segue em expansão, mas convive com um risco cada vez mais relevante: os passivos trabalhistas. Mesmo com mais de 1,2 milhão de trabalhadores envolvidos na atividade e crescimento recente na geração de empregos, grande parte das empresas ainda não monitora adequadamente essas obrigações, o que amplia a exposição a prejuízos financeiros e jurídicos.

Levantamentos do setor indicam que a maioria das empresas contratantes não acompanha os passivos gerados por transportadoras e motoristas autônomos, e uma parcela já foi obrigada a assumir dívidas trabalhistas de terceiros. O problema ganha complexidade devido à diversidade de vínculos existentes na operação, que inclui motoristas contratados via CLT, transportadores autônomos agregados e independentes.

Na prática, a linha entre prestação de serviço e vínculo empregatício nem sempre é clara. Situações em que há controle de jornada, exigência de exclusividade ou subordinação direta podem levar ao reconhecimento de vínculo pela Justiça do Trabalho, gerando custos retroativos com encargos, férias, 13º salário e horas extras.

O cenário se tornou ainda mais desafiador após mudanças recentes na legislação. A decisão do STF sobre a jornada dos motoristas trouxe novas exigências, como a obrigatoriedade de 11 horas contínuas de descanso e a inclusão do tempo de espera na jornada de trabalho. Além disso, a atualização do Código Civil passou a corrigir passivos pela Taxa Selic, o que pode elevar significativamente o valor das dívidas ao longo do tempo.

Outro ponto de atenção é a responsabilidade dos embarcadores. Mesmo não sendo empregadores diretos, empresas contratantes podem ser acionadas judicialmente e obrigadas a arcar com débitos trabalhistas caso a transportadora não cumpra suas obrigações. Prazos apertados e exigências operacionais que levem ao descumprimento da legislação também podem ampliar esse risco.

O impacto financeiro é relevante. Dependendo do regime tributário, os encargos trabalhistas podem elevar em mais de 60% o custo de um colaborador. Somado a isso, o setor ainda precisa lidar com exigências específicas, como controle rigoroso de jornada, pagamento de horas extras e cumprimento das normas da Lei do Motorista.

A entrada em vigor das novas exigências da NR-1 adiciona mais uma camada de complexidade. A norma passa a exigir que empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais, como estresse, pressão por resultados e desgaste emocional, incorporando esses fatores ao Programa de Gerenciamento de Riscos.

Diante desse cenário, especialistas apontam que a gestão preventiva é o principal caminho para reduzir a exposição. O uso de tecnologia para controle de jornada, contratos bem estruturados com transportadores autônomos, adequação às normas trabalhistas e apoio jurídico especializado estão entre as principais medidas recomendadas.

Com crescimento da demanda, aumento dos custos e maior rigor regulatório, o transporte rodoviário de cargas entra em uma fase em que eficiência operacional e compliance trabalhista passam a caminhar lado a lado. Ignorar esse movimento pode representar não apenas perda financeira, mas também riscos à continuidade das operações.