PRESSÃO SOBRE O DIESEL AFETA TRANSPORTE RODOVIÁRIO NO BRASIL

por Setceb | mar 24, 2026 | Uncategorized

A combinação de oferta mais restrita, demanda aquecida e pressões do mercado internacional já começa a afetar o abastecimento de diesel no Brasil. Relatos de falta pontual em postos, atrasos nas entregas e até racionamento para grandes consumidores indicam um cenário de tensão no transporte rodoviário, embora ainda não haja desabastecimento generalizado no país.

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) apontam que o preço médio do diesel S-10 chegou a R$ 7,35 na semana de 15 a 21 de março, acumulando alta de 19,5% desde o fim de fevereiro. Apenas na última semana, o avanço foi de 6,68%, refletindo diretamente a escalada das cotações do petróleo no mercado internacional.

O movimento está ligado ao agravamento dos conflitos no Oriente Médio, que elevou o preço do barril e encareceu o diesel importado — responsável por cerca de 30% do consumo nacional. Com o combustível chegando ao Brasil até R$ 2,50 mais caro do que o praticado internamente pela Petrobras, importadores reduziram as compras, pressionando ainda mais a oferta disponível.

Nos primeiros dias de março, o volume importado caiu cerca de 60% na comparação anual, segundo a ANP, reduzindo significativamente a disponibilidade do produto. Ao mesmo tempo, a demanda segue elevada, impulsionada principalmente pelo escoamento da safra de soja, o que aumenta o consumo no transporte rodoviário de cargas e intensifica o desequilíbrio entre oferta e demanda.

Diante desse cenário, técnicos da ANP classificam o momento como de risco para o abastecimento nacional, especialmente se a retração nas importações continuar nas próximas semanas.

Gargalos na distribuição já aparecem nas estradas

Na prática, os primeiros sinais de restrição já são percebidos nas bombas. Caminhoneiros relatam episódios de falta temporária de diesel e necessidade de aguardar reposição para conseguir seguir viagem, o que evidencia dificuldades na logística de distribuição.

Os relatos indicam que o país enfrenta, neste momento, mais um problema de descompasso logístico do que uma ruptura total no abastecimento, com atrasos nas entregas e, em alguns casos, limitação no volume comercializado.

Segundo fontes do setor, a situação ainda é descentralizada, mas já atinge diferentes regiões do país, incluindo estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Há registros de atrasos em bases de distribuição e dificuldades de fornecimento em estados como São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso.

A restrição também tem impacto desigual entre os agentes do mercado. Empresas com contratos diretos com grandes distribuidoras continuam sendo atendidas com mais regularidade, enquanto transportadores que dependem de fornecedores intermediários enfrentam maior dificuldade para garantir o abastecimento.

Além disso, já há sinais de mudança de comportamento no mercado, com postos limitando o volume abastecido por veículo e agentes retendo produto diante da expectativa de novos aumentos de preços. Em algumas regiões, o diesel já ultrapassa R$ 8 por litro, ampliando a pressão sobre os custos operacionais.

O impacto financeiro é significativo, especialmente para transportadores autônomos e pequenas empresas. Viagens que consomem grandes volumes de combustível passaram a ter custos muito mais elevados, sem repasse proporcional no valor do frete, comprimindo as margens do setor.

Mercado reage, mas cenário ainda inspira atenção

Apesar das dificuldades, entidades do setor ainda classificam o cenário como controlado, com o abastecimento funcionando, embora com restrições pontuais. No entanto, há registros mais concretos de escassez em algumas regiões, como no Rio Grande do Sul, onde municípios já enfrentam falta de diesel e priorizam serviços essenciais.

Outras regiões também apresentam sinais de restrição, como o Rio de Janeiro, especialmente na Região dos Lagos, e o litoral de São Paulo, onde alguns postos passaram a limitar o abastecimento como forma de gerenciar estoques diante da incerteza na reposição.

Diante da pressão sobre a oferta, distribuidoras têm buscado alternativas para garantir o abastecimento. A Vibra Energia, por exemplo, ampliou o volume de importação de diesel para abril e afirma que não haverá falta do combustível em sua rede de postos com bandeira Petrobras.

Segundo a companhia, embora os estoques estejam mais baixos, eles vêm sendo recompostos por meio de compras no exterior, mesmo com custos mais elevados. Esse movimento ocorre após alertas do próprio setor ao governo e à ANP sobre os riscos ao abastecimento nacional.

Os efeitos da situação já começam a se espalhar pela economia, com impacto direto sobre o transporte de cargas e atividades que dependem intensamente do combustível. Entidades como Fecombustíveis, Abicom e Sindicom alertam para o risco de agravamento caso a redução das importações persista.

O governo federal anunciou medidas emergenciais, como concessão de crédito extraordinário e redução de tributos federais, além de discutir alternativas envolvendo o ICMS com os estados. Ainda assim, agentes do mercado avaliam que as ações podem não ser suficientes diante da velocidade das mudanças no cenário internacional.

A Petrobras informou que mantém suas refinarias operando em capacidade máxima e que está ajustando a logística para ampliar a oferta. Mesmo assim, com o mercado global ainda instável, o Brasil segue exposto a oscilações de preços e riscos na cadeia de suprimento.

Por enquanto, o país não enfrenta um desabastecimento generalizado, mas já convive com um mercado mais apertado, marcado por alta de preços, atrasos na distribuição e episódios pontuais de falta de diesel em diferentes regiões.