A evolução do transporte rodoviário de cargas trouxe novos desafios para a gestão das empresas do setor. Se antes as negociações comerciais giravam principalmente em torno do preço do diesel e do valor do frete, hoje a realidade é muito mais complexa. Custos com mão de obra, tecnologia, segurança, seguros e exigências regulatórias passaram a representar uma parcela importante das despesas operacionais, exigindo uma nova forma de estruturar os contratos entre transportadoras e clientes.
Apesar dessa mudança no ambiente de negócios, muitas empresas ainda utilizam contratos elaborados há vários anos, quando a composição dos custos era diferente. Na prática, isso faz com que despesas que surgiram ou ganharam relevância ao longo do tempo sejam absorvidas pelas transportadoras, sem previsão de mecanismos para reequilibrar financeiramente a relação comercial.
Dados do Departamento de Custos Operacionais da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística mostram que combustível, veículos e mão de obra representam mais de 90% dos custos das transportadoras brasileiras. O diesel responde por 43,2% desse total, seguido pelos veículos (29,1%) e pela mão de obra (19,5%).
Para o advogado Cristiano José Baratto, especialista em Direito do Transporte e Logística, esse cenário demonstra que a gestão contratual precisa acompanhar a evolução da operação.
Segundo ele, durante muito tempo os contratos concentraram suas cláusulas de reajuste apenas nas variações do combustível. Atualmente, porém, essa prática já não reflete a realidade das empresas, que convivem com custos crescentes em diversas áreas.
Na avaliação do especialista, investimentos em rastreamento, tecnologia, sistemas de gestão, compliance, seguros e qualificação profissional passaram a fazer parte da rotina das transportadoras e deveriam ser considerados nas negociações comerciais.
Baratto ressalta que muitas empresas investem na modernização da frota e na melhoria dos processos operacionais, mas deixam de atualizar o principal instrumento que disciplina a relação com seus clientes.
"Sem uma revisão contratual periódica, a empresa acaba assumindo despesas que não estavam previstas originalmente, reduzindo sua margem de rentabilidade", explica.
O advogado também destaca que contratos bem estruturados deixam de ser apenas documentos jurídicos e passam a funcionar como ferramentas estratégicas de gestão. Cláusulas que definem critérios claros para revisão de preços e distribuição de riscos ajudam a reduzir conflitos e oferecem maior previsibilidade para ambas as partes.
Segundo Baratto, ainda é comum encontrar transportadoras preocupadas em reduzir pequenos custos operacionais, enquanto mantêm contratos que concentram praticamente todos os riscos financeiros sobre a própria empresa.
Para ele, a profissionalização do setor depende não apenas de investimentos em veículos e tecnologia, mas também da modernização das relações comerciais. Revisar contratos periodicamente, adequando-os às mudanças econômicas e operacionais, tornou-se uma medida importante para preservar a sustentabilidade financeira das transportadoras e construir parcerias mais equilibradas ao longo do tempo.
Fonte: Bem Paraná
