ESPECIALISTAS ALERTAM QUE EL NIÑO PODE TRAVAR LOGÍSTICA DE CARGAS NO BRASIL

por Setceb | out 13, 2026 | Uncategorized

Especialistas em logística, meteorologia e infraestrutura alertaram que a chegada de um episódio forte do fenômeno El Niño, ainda neste fim de 2026, pode comprometer de forma significativa o transporte de cargas no país, com hidrovias mais secas no Norte e rodovias sujeitas a alagamentos no Sul.

O alerta foi reunido pelo portal especializado Frota&Cia, que ouviu pesquisadores, entidades do setor de transporte e empresas de logística sobre os riscos climáticos para a movimentação de cargas nos próximos meses. Segundo os especialistas consultados, a preocupação central é a falta de preparo da infraestrutura brasileira para eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño já foi confirmado, e a agência americana NOAA estima em pelo menos 90% a probabilidade de que o fenômeno se torne um dos mais fortes desde 1950, com pico esperado entre o final de 2026 e o início de 2027.

Na avaliação da economista Ana Jarrouge, do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga do Estado de São Paulo (Setcesp), a estiagem associada ao fenômeno tende a reduzir o nível dos rios usados para escoamento de cargas no Norte do país. A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) estima que, em cenários de seca semelhantes, os custos logísticos de granéis podem subir entre 30% e 40%.

Já a consultoria MoveInfra projeta um custo adicional de R$ 500 milhões a R$ 800 milhões em 2026 caso as hidrovias do Norte sejam interrompidas pela seca, impacto que tende a pressionar o frete de insumos e commodities transportados por aquela região.

No sentido oposto, a Climatempo prevê chuvas acima da média, tempestades, granizo e ventos fortes na região Sul do país, enquanto Sudeste e Centro-Oeste devem enfrentar calor persistente e umidade relativa muito baixa — condições que também afetam rodovias, operações de carga e descarga e a conservação de produtos transportados.

O professor Joni Matos Incheglu, da Universidade de Mogi das Cruzes, afirmou que parte das normas técnicas usadas hoje na engenharia de rodovias e de infraestrutura logística ainda se baseia em dados climáticos desatualizados. Segundo ele, boa parte dos desastres registrados nos últimos anos está mais relacionada à escolha inadequada de locais para construção do que à fragilidade das próprias estruturas.

Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que apenas 24,5% dos municípios brasileiros utilizam soluções de drenagem baseadas na natureza, enquanto 57,5% não adotam esse tipo de solução. A limitação de recursos financeiros foi apontada como o principal obstáculo por 2.872 municípios consultados.

O setor de cadeia fria também está no radar. Liana Montemor, do Grupo Polar, alertou que atrasos e congestionamentos provocados por eventos climáticos podem reduzir a eficácia de medicamentos sensíveis à temperatura durante o transporte.

No agronegócio, estudo do Insper Agro Global apontou que o principal risco indireto do fenômeno é o atraso no plantio da soja, o que pode encurtar a janela da safrinha de milho e algodão. A advogada Cristiane Secco, do escritório Albuquerque Melo Advogados, recomendou que empresas do setor revisem contratos de transporte e armazenagem para esse cenário.

O setor de fertilizantes já sente efeitos semelhantes: as entregas ao Brasil somaram 3,16 milhões de toneladas em maio de 2026, queda de 14,7% em relação ao mesmo mês do ano anterior, enquanto a produção nacional de fertilizantes intermediários recuou 26,2% em maio e 17,1% no acumulado do ano.

Para especialistas em infraestrutura, o episódio reforça a necessidade de que rodovias, portos e demais elos da cadeia logística sejam planejados considerando riscos climáticos, e não apenas a demanda de tráfego. A gerente de projetos Mariana Pontes, da consultoria Aries, defendeu que o planejamento logístico passe a tratar de forma integrada riscos de enchente, escassez de água e demanda de energia. Para transportadoras e caminhoneiros da Bahia, o alerta chega em um momento de atenção redobrada: o estado concentra trechos de rodovias federais sensíveis a chuvas intensas, como partes da BR-101 e da BR-116, e qualquer agravamento do regime de chuvas no período pode se somar aos desafios já enfrentados nas estradas baianas, reforçando a importância de planos de contingência e de rotas alternativas para quem transporta cargas pelo estado.

Fonte: Frota&Cia