Independentemente de quem vencer o segundo turno da eleição presidencial de 2026, entidades e executivos do setor de transporte rodoviário de cargas (TRC) afirmam que o próximo governo federal terá de enfrentar uma pauta de desafios estruturais que já pressiona as transportadoras: custos operacionais elevados, dificuldade de acesso a crédito, gargalos de infraestrutura, os efeitos da Reforma Tributária, escassez de motoristas e insegurança jurídica regulatória.
O panorama foi reunido pelo portal especializado Mundo Logística a partir de dados apresentados por entidades do setor e de declarações de executivos e dirigentes sindicais, que veem no período eleitoral uma oportunidade para transformar demandas pontuais em agendas permanentes de política pública para o transporte de cargas.
Um levantamento da NTC&Logística, apresentado em agosto durante o CONET&Intersindical, mostrou defasagem média de 10,5% entre o frete praticado pelo mercado e o custo efetivo de operação das transportadoras no primeiro semestre de 2026. No mesmo período, o custo com combustíveis subiu 17,63% e o custo com mão de obra avançou 5%.
Dados do IBGE citados no levantamento mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 ante o trimestre anterior, e 1,9% no acumulado do primeiro semestre. Já o Banco Central reduziu a Selic a 14% ao ano em agosto, mas o crédito para o setor segue caro e de acesso limitado, segundo as entidades.
A ANTT também é citada no material: a carteira de concessões rodoviárias federais soma atualmente R$ 525 bilhões e abrange cerca de 18,1 mil quilômetros de rodovias sob concessão, volume apontado como insuficiente diante do tamanho da malha nacional que depende do transporte rodoviário.
Outro dado da pesquisa da NTC&Logística mostra que 88% das transportadoras entrevistadas relatam dificuldade para contratar motoristas e agregados, e 70,5% relatam atrasos no recebimento de valores referentes a fretes já prestados — dois gargalos que, segundo o setor, tendem a se agravar sem políticas de Estado de longo prazo.
Danilo Guedes, CEO da transportadora ABC Cargas, defendeu que o setor precisa de previsibilidade regulatória de longo prazo para poder planejar decisões de frota, contratação de pessoal e investimento em tecnologia, áreas em que o retorno financeiro só aparece anos depois do investimento inicial.
Já Antonio Luiz Leite, vice-presidente da NTC&Logística, diretor-presidente da transportadora Primax e diretor político da Federação das Empresas de Transportes de Carga do Estado de São Paulo (Fetcesp), cobrou estabilidade regulatória e lembrou que 2027 trará novas etapas de implementação da CBS e do IBS, os tributos centrais da Reforma Tributária, exigindo adaptação adicional das empresas. "Governos começam e terminam, mas a necessidade de transportar o Brasil permanece", resumiu.
Para as transportadoras baianas, o quadro reforça a avaliação de que qualquer alívio de custo no curto prazo depende menos do resultado da eleição e mais da continuidade de políticas já em curso, como a fiscalização do piso mínimo do frete e a modernização do licenciamento, temas que devem seguir no radar do SETCEB independentemente de quem assuma a Presidência a partir de 2027.
Fonte: Mundo Logística
