DÍVIDA A CAMINHO DE 95% DO PIB E CRESCIMENTO MAIS LENTO: O QUE ANALISTAS ESPERAM DA ECONOMIA NO NOVO MANDATO DE LULA

por Setceb | out 27, 2026 | Uncategorized

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato, confirmada no segundo turno de domingo (25), levou analistas e consultorias a revisar as projeções para a economia brasileira nos próximos quatro anos, com destaque para o crescimento da dívida pública e a perspectiva de juros altos por mais tempo.

A consultoria britânica Capital Economics projeta que a dívida pública bruta suba dos atuais 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB) para cerca de 95% até o fim do novo mandato, em 2030. Segundo William Jackson, economista-chefe de mercados emergentes da consultoria, "a vitória de Lula colocará os problemas das finanças públicas do Brasil em evidência".

Para a Capital Economics, déficits elevados somados ao custo dos juros devem seguir pressionando as contas públicas, e o arcabouço fiscal introduzido em 2023 carece de credibilidade suficiente para conter o crescimento real das despesas — o que pode aumentar o incentivo a mais gastos públicos diante da desaceleração da atividade econômica.

A consultoria projeta a manutenção da Selic em 13,75% ao ano nas duas reuniões restantes do Comitê de Política Monetária (Copom) em 2026 — a próxima está marcada para o dia 3 de novembro —, e só vê espaço para cortes em 2027 caso haja sinais concretos de melhora fiscal. A expectativa de crescimento médio recua para 1,3% ao ano no novo mandato, ante 2,7% no mandato atual.

A principal incógnita do novo governo é a escolha do ministro da Fazenda. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) desponta como o nome mais cotado para o posto, em meio a sinalizações de compromisso fiscal ao mercado financeiro. Lula elogiou publicamente a lealdade e a qualidade do vice na noite da eleição, e o presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que a escolha recairá sobre alguém de confiança estrita do presidente e que o governo não vai abrir mão do superávit primário.

Uma ala do PT, porém, defende o governador do Piauí, Rafael Fonteles, ex-secretário de Fazenda do estado, para o cargo. Caso Alckmin assuma a Fazenda, o nome de Dario Durigan é cotado para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), enquanto Camilo Santana é mencionado para a Casa Civil ou para a Educação. Até a divulgação desta reportagem, não havia anúncio oficial de Lula sobre a equipe econômica.

Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, avalia que o ajuste fiscal do novo governo deveria mirar um superávit primário de 2% do PIB, incluindo medidas como a revisão de gastos tributários e, possivelmente, mudanças na indexação do salário mínimo e nos pisos constitucionais de saúde e educação.

Analistas consultados pela imprensa atribuem parte da forte reação do mercado na segunda-feira à surpresa do resultado: o mercado chegou a apostar com confiança na vitória de Flávio Bolsonaro (PL) após o primeiro turno, levando o Ibovespa a mais de 209 mil pontos em 5 de outubro. Segundo a professora Carla Beni, da FGV e do Corecon-SP, essa "lua de mel" foi rápida, e a tensão tende a se acomodar nos próximos dias.

Já o professor Marcos Piellusch, da FIA Business School, afirma que o mercado passou a cobrar um prêmio de risco fiscal maior para o governo Lula nos próximos quatro anos, e que a alta do dólar reflete saída de capital estrangeiro — o que pode pressionar a inflação e reduzir o espaço do Banco Central para cortar os juros. Ele pondera, no entanto, que um único dia de forte estresse nos mercados não define necessariamente uma tendência de longo prazo.

Para o setor de transporte rodoviário de cargas, o cenário de juros elevados por mais tempo e de ajuste fiscal ainda incerto é motivo de atenção direta: encarece o financiamento de frotas, mantém pressão sobre o custo do diesel e da logística de forma geral, e torna mais imprevisível o ritmo de investimentos públicos em rodovias e portos nos próximos anos. Para as transportadoras baianas, a recomendação de analistas é acompanhar de perto a definição da equipe econômica e os primeiros sinais da política fiscal do novo mandato, já que esse desenho deve influenciar diretamente o custo do crédito e o planejamento de investimentos do setor até 2027.

Fonte: Money Times, com informações de Mix Vale e Metrópoles