O setor de transporte e logística tinha, até o fim de junho deste ano, 557 empresas em processo de recuperação judicial no Brasil, segundo levantamento do Monitor RGF-BIZDOC. O número representa cerca de 6,2 empresas em recuperação judicial a cada mil em atividade no setor, que soma 89.372 companhias ativas no país.
Os dados foram divulgados originalmente pelo portal Transporte Moderno e reproduzidos pela Associação Nacional dos Transportadores de Cargas (ANATC) em 29 de outubro. O levantamento é construído a partir de registros da Receita Federal cruzados com dados judiciais, e classifica os setores pelo volume e pela proporção de empresas em dificuldade financeira.
Na comparação proporcional, o transporte e logística aparece em terceiro lugar entre os setores mais afetados, atrás apenas da agropecuária e da indústria de transformação. Em números absolutos, a colocação cai para quinto lugar. Para efeito de comparação, o comércio tem mais empresas em recuperação judicial em termos absolutos — 1.333 — mas uma taxa proporcional bem menor, de cerca de 2 por mil.
Esse panorama setorial ganhou um exemplo concreto com o caso do Grupo Murici, companhia paulista formada pela Murici Transportes e Logística, pela Transportes Murici e pela Grigora Logística e Transportes, que soma cerca de 3.500 veículos em operação e 1.228 funcionários diretos. O grupo pediu recuperação judicial em 14 de agosto, com processamento deferido em 25 de agosto pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.
A lista de credores soma R$ 250.464.985,73, dos quais cerca de R$ 211,3 milhões são créditos quirografários, R$ 37,5 milhões são de natureza trabalhista e cerca de R$ 1,6 milhão são devidos a micro e pequenas empresas. Entre as causas da crise, a companhia cita o aumento dos custos operacionais, o endividamento crescente, mudanças em contratos comerciais e a alta do preço do diesel e dos custos com pessoal e frota.
O plano de recuperação, datado de 27 de outubro e divulgado em 29 de outubro, prevê deságio de 85% para credores quirografários, carência de 24 meses após a aprovação do plano e parcelamento em até 120 meses. Para créditos trabalhistas, o deságio previsto é de 40%, com pagamento em até 12 meses; já para micro e pequenas empresas, o deságio é de 70%, com um ano de carência seguido de pagamento em até 12 meses. A aprovação e a homologação do plano ainda dependem de trâmites judiciais previstos na Lei nº 11.101/2005.
O plano também revela a concentração de receita do grupo: o Mercado Livre respondeu, em média, por 58,1% do faturamento entre janeiro de 2025 e abril de 2026. Segundo o documento, esse relacionamento está sendo encerrado, e a companhia pretende redirecionar a operação para outros clientes, como Shopee, Coca-Cola e Petlove.
O caso do Grupo Murici ilustra, em escala ampliada, um cenário de pressão financeira que já havia sido identificado no levantamento setorial: custos crescentes de diesel, pessoal e manutenção de frota, somados ao endividamento, colocam transportadoras de diferentes portes sob risco de insolvência em todo o país. Para empresas associadas ao SETCEB, o alerta reforça a importância de monitorar de perto a concentração de clientes e os custos operacionais, especialmente em um momento de diesel mais caro e juros elevados, fatores que também pressionam o fluxo de caixa de transportadoras baianas.
Fonte: ClickPetróleoeGás
