Mensagens que circulam nas redes sociais anunciando uma greve nacional de caminhoneiros para a próxima quinta-feira, dia 5 de novembro, não têm confirmação de nenhuma entidade do setor consultada até esta segunda-feira (2). A principal liderança nacional da categoria negou formalmente que exista qualquer paralisação programada para o mês.
A negativa foi divulgada por Wallace Landim, conhecido como Chorão, presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), em declaração veiculada em 31 de outubro. Segundo ele, não existe nenhuma greve nacional programada para novembro, embora não tenha descartado uma mobilização futura caso as negociações com o governo não avancem.
A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) também já havia se manifestado sobre o tema, em nota de 19 de março deste ano, na qual afirma que a entidade não convoca paralisações por conta própria: qualquer decisão depende de deliberação da categoria em assembleias. A nota, porém, não trata especificamente da data de 5 de novembro, o que reforça que não há, até o momento, uma convocação formal vinculada a essa data.
De acordo com a apuração, o boato parece ter como origem a recirculação de reportagens antigas sobre mobilizações passadas, agora compartilhadas sem contexto e associadas a uma nova data. Um dos pontos de propagação identificados foi uma publicação do deputado federal Rodolfo Nogueira, do Mato Grosso do Sul, em suas redes sociais, replicando uma reportagem de outro período. Outra fonte de ruído foi um vídeo gravado por um caminhoneiro identificado apenas como "Patrola", sem vínculo com nenhuma entidade de representação, que fez uma ameaça de paralisação no início da semana.
O episódio reedita um padrão já visto em março deste ano, quando a categoria chegou a declarar estado de greve em resposta à disparada do preço do diesel, impulsionada na ocasião por um conflito no Oriente Médio iniciado em 28 de fevereiro. Uma assembleia realizada em Santos, em 19 de março, decidiu não deflagrar paralisação nacional, e a Secretaria-Geral da Presidência da República confirmou, em comunicado de 25 de março, que os caminhoneiros haviam decidido não parar.
Esse episódio de março terminou com a sanção da Lei nº 15.485/2026, em agosto, que tornou permanentes as regras da medida provisória do frete mínimo editada naquele mês. A nova lei estendeu penalidades a intermediários e plataformas de frete, manteve a obrigatoriedade do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT) e vetou o perdão de multas vinculadas aos bloqueios de rodovias ocorridos em 2022, segundo informações da Agência Senado.
As reivindicações que embasam o atual clima de insatisfação permanecem as mesmas: revisão da planilha de custos do frete, equalização entre eixos, preço do diesel e custos de manutenção dos veículos, além da efetiva fiscalização do cumprimento da tabela de pisos mínimos do frete regulamentada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Chorão afirmou ter estado recentemente no Ministério dos Transportes e que as conversas sobre esses pontos continuam em andamento.
O cenário de custos ajuda a explicar por que o boato encontrou terreno fértil entre os motoristas. Em março, a Petrobras havia reajustado o diesel em 11,6% nas refinarias, com alta de cerca de 19% nas bombas desde o fim de fevereiro. Mais recentemente, em 27 de outubro, o governo federal renovou por mais 30 dias a subvenção de R$ 2,12 por litro de diesel, medida que tenta conter o impacto do combustível sobre o frete e a inflação. Ainda assim, pesa sobre o setor o anúncio de que o ICMS sobre o diesel subirá de R$ 1,17 para R$ 1,30 por litro a partir de fevereiro de 2027, o que já levou sindicatos patronais de transportadoras em Minas Gerais a projetar reajustes de até 40% no frete a partir de janeiro.
Até a publicação desta reportagem, nenhuma entidade nacional havia apresentado documento formal de convocação para a quinta-feira. A própria apuração ressalva que os caminhoneiros não constituem uma categoria organizada sob uma única liderança, o que torna a simples insatisfação com custos e fretes insuficiente para caracterizar uma greve de fato aprovada.
A situação deve continuar sendo monitorada nos próximos dias, já que qualquer mobilização de abrangência nacional tende a afetar diretamente o fluxo de cargas também na Bahia, dada a dependência do estado das rodovias federais para o abastecimento e o escoamento da produção. Transportadoras associadas ao SETCEB devem acompanhar de perto o desfecho das negociações entre as entidades de caminhoneiros autônomos e o Ministério dos Transportes, assim como eventuais atualizações da ANTT sobre a fiscalização do piso mínimo de frete, tema que segue no centro das reivindicações do setor.
Fonte: Gazeta do Paraná
