A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) voltou a atualizar a tabela do piso mínimo do frete rodoviário poucos dias após a última revisão, em um movimento que evidencia a forte pressão do diesel sobre o setor e reforça a estratégia do governo para evitar uma nova paralisação de caminhoneiros. A medida surge em um momento de instabilidade, buscando dar maior previsibilidade ao mercado e garantir o cumprimento das regras.
A nova atualização foi publicada na sexta-feira (20) e ocorre na sequência de um ajuste recente, motivado pela alta do combustível. O intervalo curto entre as revisões está previsto em lei e acontece sempre que o preço do diesel registra variação igual ou superior a 5%, obrigando a ANTT a recalibrar os coeficientes do frete para acompanhar os custos da operação.
Esse mecanismo, conhecido como “gatilho do diesel”, foi criado para evitar defasagens e proteger os transportadores de oscilações bruscas no principal insumo da atividade. Na prática, ele garante que o piso mínimo acompanhe a realidade do mercado, reduzindo perdas e distorções na remuneração do frete.
Com a recente valorização do combustível, o gatilho foi novamente acionado, levando a mais uma correção nos valores. Segundo a ANTT, o objetivo é alinhar os preços aos custos reais da atividade e manter o equilíbrio nas relações comerciais entre contratantes e transportadores.
Os novos valores variam de acordo com o tipo de carga, número de eixos e modelo de operação, estabelecendo pisos obrigatórios para categorias como carga geral, granel e frigorificada. A atualização impacta diretamente a renda dos caminhoneiros, o planejamento das transportadoras e o custo logístico das empresas embarcadoras.
A revisão também ocorre em paralelo à implementação da Medida Provisória nº 1.343/2026, que promove mudanças estruturais na fiscalização do transporte rodoviário de cargas. Entre as principais novidades está a obrigatoriedade do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT), que passa a funcionar como um mecanismo de controle prévio das operações.
Com essa nova lógica, fretes contratados abaixo do piso mínimo deixam de ser realizados, já que o sistema impede a emissão do CIOT em casos irregulares. A fiscalização, portanto, deixa de ser apenas punitiva e passa a atuar antes mesmo da execução do transporte.
Trégua após risco de paralisação
As medidas foram adotadas em um contexto recente de forte tensão no setor, marcado pelo risco de uma nova greve de caminhoneiros diante da alta do diesel e do descumprimento recorrente da tabela. A edição da medida provisória e o endurecimento das regras contribuíram para uma trégua momentânea, com lideranças recuando de mobilizações.
Nesse cenário, a atualização da tabela vai além de um ajuste técnico e passa a integrar uma estratégia mais ampla do governo, baseada na correção rápida dos valores do frete e no reforço da fiscalização digital. A intenção é garantir que a política de pisos mínimos seja efetivamente cumprida em todo o país.
A avaliação do mercado é de que essas medidas fazem parte de um esforço para reduzir distorções concorrenciais e dar mais equilíbrio ao setor, especialmente entre empresas que seguem as regras e aquelas que operam fora da legalidade.
Cenário segue pressionado
Apesar do alívio momentâneo, o ambiente ainda é de incerteza. A volatilidade no preço do diesel pode continuar acionando o gatilho em curtos intervalos, exigindo novas atualizações ao longo do ano e mantendo o setor sob pressão constante.
Ao mesmo tempo, o sucesso das medidas dependerá da efetividade na implementação do novo modelo de fiscalização e do cumprimento das regras na prática, fatores que ainda geram cautela entre transportadores e empresas.
Dessa forma, a sequência de revisões ao longo de 2026 reforça que o transporte rodoviário de cargas ainda enfrenta um cenário desafiador, em que a estabilidade depende tanto do comportamento dos custos quanto da eficácia das ações regulatórias.