As transportadoras brasileiras enfrentam um ambiente financeiro cada vez mais exigente. O aumento dos juros, a elevação dos custos operacionais e a redução das margens têm dificultado o acesso ao crédito e contribuído para o crescimento da inadimplência no setor. Diante desse cenário, empresas passaram a rever seus investimentos e priorizar a preservação do caixa.
Na avaliação da Rands, empresa de soluções financeiras da Randoncorp, os índices de atraso em financiamentos de caminhões e implementos apresentaram piora nos últimos meses, especialmente entre transportadoras que operam com elevado nível de endividamento ou menor capacidade de absorver o aumento dos custos.
Segundo o gerente de Negócios da instituição, Daniel Sierota, o cenário atual é resultado dos efeitos acumulados do longo período de juros elevados, que aumentou o custo do dinheiro e reduziu a capacidade financeira das empresas.
Além do crédito mais caro, despesas com combustível, manutenção, seguros, pedágios e o alongamento dos prazos para recebimento dos fretes passaram a pressionar ainda mais o fluxo de caixa das transportadoras.
Mesmo com esse ambiente mais desafiador, Sierota destaca que a carteira de financiamentos continua apresentando níveis considerados administráveis, reflexo de critérios mais rigorosos na concessão de crédito e de uma seleção mais criteriosa dos clientes.
Perfil do financiamento mudou
O comportamento das transportadoras diante do crédito também sofreu alterações.
Enquanto, em anos anteriores, a maior parte dos financiamentos era destinada à expansão ou renovação da frota, atualmente cresce a procura por operações voltadas à manutenção da liquidez e ao financiamento das despesas do dia a dia.
Segundo a Rands, esse movimento demonstra uma postura mais conservadora das empresas, que passaram a priorizar a estabilidade financeira diante das incertezas do mercado.
A estratégia também influencia a gestão da frota. Em vez de ampliar o número de veículos, muitas empresas têm concentrado esforços na substituição de unidades mais antigas ou recorrido a alternativas como locação e terceirização, modelos que reduzem a necessidade de investimento próprio e oferecem maior previsibilidade de custos.
Indicadores mostram aumento da inadimplência
Os números confirmam o momento de maior cautela vivido pelo setor.
Em entrevista publicada pela Transporte Moderno, o diretor executivo da Rands, Luis Felipe Szmidtke, informou que a inadimplência entre empresas do transporte rodoviário de cargas alcançou aproximadamente 4,5%, o maior índice registrado nos últimos 15 anos. Em períodos de maior estabilidade econômica, esse percentual girava próximo de 1%.
Outros indicadores seguem a mesma tendência. Dados da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef) apontam crescimento dos atrasos nos financiamentos de veículos para pessoas jurídicas. No Crédito Direto ao Consumidor (CDC), os contratos com atraso entre 15 e 90 dias passaram de 4,1% para 4,9% em um ano. No leasing empresarial, o índice aumentou de 0,6% para 1,5%.
Embora esses dados englobem diferentes segmentos econômicos, eles reforçam o ambiente de maior risco observado também no transporte rodoviário de cargas.
Frota pode ser comprometida em casos de inadimplência
A dificuldade para manter os pagamentos pode colocar em risco justamente o principal ativo das transportadoras: os caminhões.
Nos contratos firmados com alienação fiduciária, a inadimplência pode resultar em ações de busca e apreensão dos veículos financiados.
O advogado Gustavo Maffioletti explica, porém, que cada processo deve ser analisado individualmente, já que eventuais irregularidades na constituição da dívida ou nos procedimentos adotados pela instituição financeira podem ser discutidas judicialmente.
Segundo ele, quando existem fundamentos jurídicos consistentes, é possível buscar medidas que permitam à empresa permanecer com os veículos enquanto o processo é analisado, preservando a continuidade das operações.
Renegociação exige planejamento
Para as empresas que enfrentam dificuldades financeiras, renegociar dívidas pode ser uma alternativa importante, desde que o processo seja realizado com cautela.
Maffioletti recomenda que as transportadoras conheçam detalhadamente a composição dos contratos antes de aceitar novas condições propostas pelas instituições financeiras.
Segundo o especialista, incorporar valores ou encargos sem uma análise técnica pode ampliar ainda mais o endividamento e comprometer futuras negociações.
Move Brasil mantém estímulo à renovação da frota
Mesmo diante das restrições de crédito, programas públicos continuam incentivando investimentos no setor.
Por meio do BNDES Mais Mobilidade, o Move Brasil 2 já aprovou R$ 20 bilhões em financiamentos para aquisição de veículos pesados, praticamente esgotando os recursos disponíveis para a iniciativa.
Desse total, R$ 19,1 bilhões foram destinados às empresas transportadoras e R$ 900 milhões aos caminhoneiros autônomos.
Na avaliação da Rands, programas específicos de financiamento continuam sendo importantes para manter a renovação da frota em um período em que o crédito privado permanece mais seletivo e o custo financeiro ainda representa um dos principais desafios para o transporte rodoviário de cargas.
Fonte: Mundo Logística
