A logística brasileira pode passar por uma das maiores mudanças das últimas décadas com a implementação da Reforma Tributária. Um estudo da fintech Qive indica que a substituição gradual do ICMS pelos novos tributos sobre o consumo tende a alterar a forma como empresas definem a localização de centros de distribuição e organizam suas operações de transporte, priorizando critérios logísticos em vez de benefícios fiscais.

A análise integra o estudo Panorama do Contas a Pagar e foi elaborada com base em 194,2 milhões de Conhecimentos de Transporte Eletrônico (CT-es) emitidos entre janeiro de 2024 e dezembro de 2025. Nesse período, as operações de transporte movimentaram 34,2 trilhões de quilos de mercadorias, geraram R$ 211 bilhões em fretes e resultaram em R$ 14,2 bilhões de arrecadação de ICMS.

Segundo o levantamento, a atual configuração logística do país ainda reflete a influência da tributação estadual. Em muitas situações, empresas optam por instalar centros de distribuição em determinadas unidades da federação para aproveitar incentivos fiscais, mesmo que isso represente percursos maiores e aumento da distância percorrida pelas cargas.

Com a entrada em vigor do novo modelo tributário, essa lógica tende a perder força. Como a cobrança passará a ocorrer no destino da mercadoria por meio do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), fatores como proximidade dos consumidores, infraestrutura rodoviária e tempo de entrega deverão ganhar maior peso nas decisões estratégicas das empresas.

Para Guilherme Martins, gerente de Produto e especialista em Reforma Tributária da Qive, a mudança deve provocar uma reorganização da malha logística nacional. Segundo ele, a escolha de novos centros de distribuição passará a ser orientada principalmente pela eficiência operacional, reduzindo a influência dos incentivos tributários estaduais.

O estudo também traça um retrato da atividade de transporte no país. O varejo lidera em quantidade de operações, com mais de 52 milhões de CT-es emitidos no período analisado. Apesar do elevado volume de viagens, o segmento registra um dos menores valores médios por frete, cerca de R$ 1,5 mil, característica associada à distribuição pulverizada e às entregas voltadas ao consumo.

Em sentido oposto, os setores de energia e agronegócio concentram operações de maior valor agregado. Os fretes ligados à cadeia energética apresentaram ticket médio superior a R$ 11 mil, enquanto as operações do agronegócio registraram média próxima de R$ 5,4 mil, refletindo o transporte de grandes volumes em longas distâncias.

Outro aspecto destacado pela pesquisa é a rapidez do ciclo financeiro no transporte de cargas. Diferentemente de outros segmentos do mercado corporativo, os pagamentos dos fretes costumam ocorrer em poucos dias e, na maioria das vezes, sem parcelamento. Segundo Martins, essa característica reduz o tempo disponível para identificar e corrigir inconsistências nos documentos fiscais antes da liquidação das operações.

O levantamento confirma ainda a concentração das atividades logísticas em São Paulo. Mais da metade dos CT-es emitidos no país teve origem no estado, com destaque para municípios como Cajamar, Guarulhos, Barueri e Sumaré, que concentram importantes centros de distribuição de transportadoras, operadores logísticos e empresas de comércio eletrônico.

Na avaliação da Qive, a Reforma Tributária deverá acelerar uma reorganização da logística nacional nos próximos anos. A expectativa é que decisões sobre localização de armazéns, definição de rotas e estrutura das redes de distribuição passem a ser orientadas cada vez mais pela eficiência operacional e pela redução dos tempos de entrega, e não mais pelas diferenças de tributação entre os estados.