O avanço das mudanças nas regras do piso mínimo do frete voltou a preocupar o setor produtivo do Nordeste. Representantes da indústria avaliam que a aprovação da Medida Provisória nº 1.343/2026 pela Câmara dos Deputados poderá ampliar os custos logísticos em uma região que já enfrenta dificuldades estruturais para o transporte de cargas.

A proposta, que ainda depende da análise do Senado, reforça os mecanismos de fiscalização da política de pisos mínimos do transporte rodoviário e cria novas exigências para a contratação de fretes. Entre as mudanças está o bloqueio de operações contratadas abaixo dos valores definidos pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), além da previsão de um piso salarial de R$ 5 mil para motoristas de longa distância.

Para entidades empresariais, o principal desafio não está apenas nas novas regras, mas nas características da logística nordestina. A região depende fortemente do transporte rodoviário e possui baixa oferta de cargas no sentido de retorno para os estados do Sul e Sudeste, situação que historicamente permitiu negociações com valores menores para evitar que caminhões voltassem vazios.

Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que o tabelamento do frete já elevou os custos logísticos no Nordeste em média 20,3%, percentual superior ao registrado no conjunto do país, estimado em 16,4%. Segundo representantes do setor, a aplicação mais rigorosa da política poderá ampliar ainda mais essa diferença.

Outro fator apontado pelas federações industriais é a limitada participação de modais alternativos na região. A baixa disponibilidade de ferrovias e hidrovias faz com que grande parte da produção dependa exclusivamente das rodovias, reduzindo a flexibilidade das empresas para buscar soluções logísticas mais competitivas.

Entre os segmentos que demonstram maior preocupação está o Polo Gesseiro do Araripe, em Pernambuco, responsável por aproximadamente 90% da produção brasileira de gipsita. O setor estima que, dependendo da rota e do tipo de carga, os custos com transporte possam aumentar entre 60% e 90%.

A cadeia produtiva reúne centenas de empresas e responde por milhares de empregos diretos e indiretos. Como os principais mercados consumidores estão concentrados nas regiões Sudeste e Sul, o frete representa parcela significativa do custo final dos produtos.

Estudos apresentados pelo setor indicam que, em algumas rotas, o transporte poderá custar mais do que a própria mercadoria. Esse cenário, segundo empresários, tende a reduzir a competitividade da produção nordestina e estimular a substituição por materiais concorrentes ou mesmo por produtos importados.

Diante desse contexto, entidades como o Sindusgesso defendem a criação de critérios regionais para a aplicação da tabela de frete. A proposta é que a metodologia considere fatores específicos da logística nordestina, como a baixa disponibilidade de cargas de retorno, as longas distâncias até os grandes centros consumidores e as particularidades das cadeias produtivas locais.

Enquanto a MP segue em discussão no Congresso Nacional, o debate sobre seus impactos vai além das transportadoras. Para a indústria, o desafio é encontrar um equilíbrio entre a valorização do transporte rodoviário e a preservação da competitividade de setores estratégicos para a economia regional.