A chegada do inverno costuma aliviar as preocupações relacionadas ao calor intenso, mas, para a logística de produtos refrigerados, as baixas temperaturas também exigem atenção. Em operações que transportam medicamentos, vacinas, alimentos perecíveis e outros itens sensíveis, o frio excessivo pode ser tão prejudicial quanto o superaquecimento, tornando o controle térmico um dos principais fatores para garantir a qualidade da carga.
Esse cenário ocorre em um momento de expansão da cadeia fria no Brasil. Estimativas do IMARC Group indicam que o mercado nacional de logística refrigerada movimentou cerca de US$ 5,4 bilhões em 2025 e pode ultrapassar US$ 11 bilhões até 2034, impulsionado pelo crescimento da indústria farmacêutica, da demanda por alimentos perecíveis e pela necessidade de maior controle durante o transporte.
Embora seja comum associar caminhões refrigerados apenas ao resfriamento da carga, especialistas destacam que, durante o inverno, muitos equipamentos precisam desempenhar a função oposta. Em determinadas regiões e horários do dia, a temperatura externa pode cair abaixo do limite recomendado para diversos produtos, tornando necessário aquecer o compartimento de carga para preservar suas características.
Esse cuidado é especialmente importante no transporte farmacêutico. Medicamentos, vacinas e produtos biológicos costumam exigir temperatura constante entre 2°C e 8°C durante todo o percurso. Oscilações fora dessa faixa podem comprometer a eficácia dos produtos e provocar perdas significativas.
Segundo Vinilton Souza, líder de serviços e do centro de treinamento para a América Latina da Thermo King, o desafio da operação está justamente em manter a estabilidade térmica, independentemente das condições climáticas.
“Existe a percepção de que o inverno facilita o transporte refrigerado, mas isso nem sempre acontece. Em muitos casos, o equipamento precisa aquecer a carga para evitar que a temperatura fique abaixo do limite especificado, preservando a integridade dos produtos durante toda a viagem”, explica.
Além da capacidade de aquecimento, outro fator decisivo é a preparação da frota antes do período de temperaturas mais baixas. Revisões preventivas ajudam a verificar o funcionamento dos sistemas de refrigeração e aquecimento, além de identificar falhas que poderiam comprometer a operação durante o transporte.
Especialistas também alertam para erros operacionais que podem afetar o desempenho da cadeia fria. Configurações inadequadas dos equipamentos ou a utilização de modos de operação incompatíveis com o tipo de carga podem provocar oscilações térmicas ao longo do trajeto. Em determinadas operações, por exemplo, o funcionamento contínuo do sistema de climatização é a alternativa mais indicada para manter a temperatura estável.
A digitalização também vem ampliando a segurança das operações. Sistemas de monitoramento remoto permitem acompanhar, em tempo real, indicadores como temperatura interna do baú, desempenho dos equipamentos e consumo de combustível, além de emitir alertas sempre que houver desvios dos parâmetros programados. Isso possibilita intervenções rápidas antes que a qualidade da carga seja comprometida.
Com a expansão da cadeia fria e o aumento das exigências sanitárias e regulatórias, o controle da temperatura deixa de ser apenas uma etapa operacional e passa a integrar a estratégia logística das empresas. Independentemente da estação do ano, manter a estabilidade térmica durante todo o percurso tornou-se um requisito essencial para reduzir perdas, preservar a qualidade dos produtos e garantir a confiabilidade das operações.