O transporte rodoviário de cargas no Brasil registrou um comportamento pouco comum entre abril e junho deste ano: mesmo com o volume nacional de fretes recuando 22% na comparação com o mesmo trimestre de 2025, o preço médio cobrado pelo serviço subiu 20% e atingiu o maior patamar já registrado. O resultado indica que a disponibilidade de caminhões e motoristas passou a pesar mais na formação das tarifas do que o custo do diesel, fator que historicamente puxava as variações de preço no setor.
Os números fazem parte da mais nova edição do Frete Insights, levantamento trimestral produzido pela Frete.com a partir do acompanhamento do mercado spot de transporte de cargas no país. Segundo o estudo, o Índice Frete.com de Preços (IFP) avançou 5,3% na comparação com o primeiro trimestre de 2026 e fechou junho com alta mensal de 3,3%, dando sequência a uma trajetória de valorização que já se estende por vários trimestres seguidos.
Enquanto o diesel acumulou alta de 14% em 12 meses, o preço médio do frete subiu 21% no mesmo intervalo — evidência, segundo a Frete.com, de que o combustível deixou de ser o principal vetor de pressão sobre as tarifas. Passou a prevalecer o desequilíbrio entre oferta e demanda por caminhões, sobretudo nos corredores que escoam a produção do agronegócio: mesmo com menos cargas circulando, a limitação da frota disponível manteve os preços em alta.
A distribuição regional do volume de fretes também mudou de perfil. Todas as regiões registraram queda na movimentação no trimestre, mas o Sudeste ampliou sua fatia do mercado nacional, de 39% para 43% do total, enquanto Sul e Norte tiveram as retrações mais acentuadas, de 34% cada. Na leitura por estado, São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso concentraram, juntos, 52% de todo o volume de fretes mapeado pela plataforma — retrato da força dos corredores que ligam o parque industrial paulista e mineiro às áreas produtoras do Centro-Oeste.
O agronegócio seguiu como o principal cliente do transporte rodoviário brasileiro, respondendo por 42,9% do volume total de fretes do trimestre, mesmo em meio à retração geral da movimentação. Foi justamente nas rotas ligadas ao setor que as tarifas mais subiram frente ao segundo trimestre de 2025: o trecho Nova Mutum (MT)–Imbituba (SC) encareceu 72,3%, Barro Alto (GO)–Laranjeiras (SE) teve alta de 49,2% e Campo Verde (MT)–Paranaguá (PR) subiu 48,6%.
O levantamento também identificou os corredores com maior desequilíbrio entre oferta de caminhões e demanda por cargas. O trecho Coromandel (MG)–Santos (SP) lidera esse indicador, com 6,96 cargas disponíveis para cada caminhão, seguido por Porto dos Gaúchos (MT)–Rondonópolis (MT), com 5,11, e Luz (MG)–Santos (SP), com 4,56. Segundo a Frete.com, os gargalos continuam concentrados nas rotas que escoam produção agropecuária até os portos, enquanto alguns corredores voltados a portos da Região Sul já têm mais caminhões disponíveis do que cargas — sinal de menor pressão sobre os preços nessas operações. Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo lideram o indicador de carga por caminhão, reflexo da maior pressão sobre a capacidade de transporte nesses três estados.