QUEDA NOS ROUBOS DE CARGA ESCONDE NOVA DINÂMICA DO CRIME ORGANIZADO

por Setceb | ago 25, 2026 | Uncategorized

A redução dos registros de roubo de cargas no Brasil representa um avanço para o setor de transporte, mas os números não significam que o risco tenha desaparecido. Pelo contrário: a atuação das quadrilhas vem se tornando mais seletiva e direcionada a cargas com maior valor e facilidade de comercialização.

Em São Paulo, os registros de roubo de cargas caíram mais de 34% entre janeiro e maio de 2026, atingindo o menor nível da série histórica para o período. No cenário nacional, levantamento da NTC&Logística aponta 8.570 ocorrências em 2025, uma redução de 16,7% em relação ao ano anterior e de mais de 60% na comparação com o pico registrado em 2017.

Apesar da queda, os prejuízos continuam elevados. As perdas diretas chegaram próximas de R$ 900 milhões em 2025 e ultrapassaram R$ 1 bilhão quando considerados os impactos indiretos, como seguros mais caros, contratação de escoltas, interrupções operacionais, reprogramação de rotas e atrasos na cadeia de abastecimento.

A mudança mais significativa, entretanto, está no perfil dos crimes. As organizações criminosas passaram a concentrar esforços em mercadorias com maior valor agregado, demanda constante e facilidade de revenda. Alimentos, medicamentos e produtos eletrônicos ganharam espaço entre os principais alvos, indicando uma atuação cada vez mais orientada pela relação entre risco e retorno.

Segundo levantamento da nstech, a Região Sudeste concentrou 68,1% dos prejuízos com roubo de cargas em 2025. A concentração está relacionada à presença de grandes centros industriais, centros de distribuição e importantes corredores logísticos, que movimentam diariamente um grande volume de mercadorias.

Nesse cenário, a segurança das operações deixa de depender apenas do aumento da quantidade de veículos monitorados. Transportadoras precisam considerar fatores como valor da carga, rota utilizada, horário da viagem, histórico de ocorrências e vulnerabilidades específicas de cada operação.

Outro ponto que merece atenção é que o prejuízo provocado pelo roubo não termina com a perda da mercadoria. Uma ocorrência pode gerar atrasos nas entregas, ruptura de estoques, interrupção da produção, descumprimento de contratos, aumento dos custos de gerenciamento de risco e impactos sobre o preço final dos produtos.

A redução das ocorrências também está relacionada ao avanço das medidas de prevenção. A integração entre transportadoras, embarcadores, gerenciadoras de risco, seguradoras e forças de segurança, aliada ao uso de rastreamento, monitoramento em tempo real, inteligência embarcada e análise de dados, tem contribuído para antecipar situações de risco e reduzir a exposição das operações.

O desafio, portanto, é evitar que a melhora dos indicadores provoque uma falsa sensação de segurança. A redução dos roubos mostra que as estratégias de prevenção estão produzindo resultados, mas também estimula os criminosos a buscar novas formas de atuação.

Para o transporte rodoviário de cargas, a tendência reforça a importância de uma gestão de risco cada vez mais baseada em informação. Mais do que reagir depois que um caminhão é abordado, as empresas precisam identificar previamente as condições que podem transformar uma viagem em um alvo.

A queda no número de ocorrências é uma conquista importante, mas não representa o fim do problema. O cenário atual mostra um crime mais seletivo e estratégico, exigindo das transportadoras o mesmo nível de inteligência, planejamento e capacidade de adaptação. Afinal, quando o número de ataques diminui, mas o potencial de prejuízo permanece elevado, olhar apenas para as estatísticas pode esconder justamente onde está o próximo risco.

Fonte: Tecnologística