por Setceb | jul 8, 2024 | Uncategorized
O então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, no aniversário de um ano do real – (crédito: Andre Brant/CB/D.A Press)
Remédio bom é remédio amargo, diz a sabedoria popular. No caso do Plano Real, foi o setor produtivo que amargou o dissabor da paridade cambial, uma das principais marcas do programa lançado pela equipe econômica de Fernando Henrique Cardoso, que, de maneira artificial, fez com que cada real valesse um dólar.
Por causa disso e da combinação com a elevação das taxas de juros, a década de 1990 foi marcada por uma forte crise do setor manufatureiro e queda nas exportações. O crescimento médio do Produto Interno Bruto (PIB) — a soma de tudo o que é produzido em bens e serviços — no período 1991-1999 foi de apenas 2,4% ao ano. Ali, segundo especialistas, o Brasil iniciou um processo de desindustrialização que perdura até os dias atuais. No caso das exportações, foram anos de sucessivos deficits na balança comercial, o que levou as transações em conta corrente a um saldo também negativo ao longo da década.
“O binômio formado por juros altos e câmbio valorizado trouxe efeitos muito severos para a indústria, especialmente para manufatura no Brasil. O país já padecia com chamado custo do Brasil, envolvendo uma série de problemas, como infraestrutura e sistema tributário. Acrescer a sobrevalorização cambial e a taxa de juros, prejudicou a competitividade da indústria nacional. A indústria foi para o chão”, comenta Armando Monteiro Neto, ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic).
“É claro que não significa dizer que a gente é contra o Plano Real. Não poderíamos ser contra a estabilização e a economia de uma maneira geral. Nenhum país pode conviver com a inflação naqueles níveis anteriores ao real. Mas, o custo desses anos iniciais do processo de estabilização foi muito penoso”, ressalva Monteiro.
O economista Gesner Oliveira, secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda à época da implantação da nova moeda, acrescenta que a indústria local foi afetada também pelo contexto internacional, de abertura comercial, com a redução tarifária entre os países. “Simultaneamente a essa sobrevalorização cambial, houve a liberalização tarifária, que estava ocorrendo no âmbito do Mercosul. A Tarifa Externa Comum (TAC) da união aduaneira foi criada naquele momento. Então, essa combinação da liberação tarifária, da sobrevalorização cambial e do custo do Brasil, prejudicou a indústria nacional”, comenta Gesner.
Ele recorda que havia a avaliação de que o dólar valendo menos favoreceria a política industrial, uma vez que as empresas poderiam renovar suas fábricas com novos equipamentos, já que estava mais barato importar os bens de capital. Monteiro, por sua vez, aponta que, com as indústrias paralisadas, baixa produtividade, não havia como comprar novos equipamentos. “O empresário comprava a máquina para produzir e o produto fabricado não tinha competitividade, isso desestimulava o investimento”, observa o industrial, ao destacar que as dificuldades perduram.
Otimista com aquilo que o atual ministro do Mdic Geraldo Alckmin batizou de “neoindustrialização”, Monteiro aponta a reforma tributária e o investimento em inovação e sustentabilidade como fatores que poderão impulsionar o setor daqui para a frente.
“Não há dúvida de que, nesse processo de relançamento ou de neoindustrialização, será necessário fazer um esforço na dupla agenda, que seria reduzir o custo Brasil e, nesse sentido, a indústria aposta muito na reforma tributária e, do outro lado, desenvolver competências e promover inovação para que a indústria possa aproveitar oportunidades que estão aí, como a da digitalização e da descarbonização.”
Balança desfavorável
O período marcado pela enxurrada de produtos estrangeiros no Brasil afetou em cheio a balança comercial brasileira. O maior símbolo da época eram as lojas de R$ 1,99 que se espalharam pelo país, mas não eram apenas as bugigangas que entravam com facilidade no Brasil. Produtos de alto valor, como automóveis, entravam facilmente.
O presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto Castro, recorda que, antes disso, os produtos industrializados ocupavam quase 60% da pauta de exportações brasileiras, numa época em que o agro não tinha o mesmo peso de hoje. “O Brasil era um grande exportador de manufaturados como automóveis, autopeças e calçados. Naquele momento, o custo de exportar ficou muito mais elevado e as empresas desistiram das vendas. Até hoje não recuperamos o nível de exportações da época”, conta Castro, ao citar que, antes do Plano Real, o país estava à frente de países como China, México, Índia e Coreia no comércio exterior. “Todos esses países ultrapassaram o Brasil e, hoje, vendem muito mais”, observa.
“Compreende-se que, o grande objetivo na época era combater a hiperinflação. E a escolha foi controlar a inflação pelo câmbio. Com isso, as exportações foram sacrificadas”, acrescenta Castro, recordando que houve momento em que o real custou US$ 0,82.
Gesner Oliveira admite que o país tardou em mudar o regime cambial, o que só veio a ocorrer em 1999, com a flutuação do câmbio, ainda hoje vigente no país. “A flutuação deveria ter ocorrido logo na primeira fase do Plano Real”, comenta.
Abertura
Criador da lei antitruste brasileira, o economista menciona a angústia do então presidente Itamar Franco por não estar previsto na formatação do programa de estabilização, o controle de preços. “Itamar estava preocupado, principalmente, com o valor dos medicamentos. Mas, tabelar o preço teria sido muito contrário à filosofia do plano”, ele lembra. “A solução dada me pareceu engenhosa, que foi criar a lei de defesa da concorrência, muito necessária no momento em que se falava em privatização”, completa Gesner, em referência ao projeto de privatizações de setores como telecomunicações, energia e saneamento.
“Nesse sentido, tornou-se importante uma lei de controle do abuso do poder econômico. Então, com essa lei, o presidente Itamar teve o seu desejo de controlar os preços acolhido e, ao mesmo tempo, o país introduziu algo que era necessário naquele momento”, reforça o economista que, no governo seguinte, presidido por Fernando Henrique Cardoso, assumiu o posto de presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Naquele momento, o mundo vivia a fase da globalização, e o Brasil abria suas portas para empresas estrangeiras, inclusive nas pretensas privatizações.
Agronegócio
No início dos anos 2000, o Brasil foi favorecido pelo chamado “boom das commodities”. Antes disso, em 1999, para estancar o crescimento da dívida externa estratosférica, o governo FHC criou o regime de câmbio flutuante, em que o valor da moeda estrangeira no país é definido pelas forças do próprio mercado.
“As commodities ganharam peso na pauta de exportações, seja em volume seja em preço, e isso gerou um aumento nas receitas cambiais, que ajudou o Brasil a pagar a dívida externa e compor as reservas cambiais que estão aí até hoje. Tudo isso foi criado por conta do mercado externo, não houve uma decisão política interna do Brasil”, observa José Augusto Castro.
Com o boom das commodities e a consecutiva geração de superávits comerciais, o Brasil conseguiu expandir as reservas internacionais — atualmente em mais de US$ 356 bilhões — e espantou o fantasma do Fundo Monetário Internacional (FMI), com quem havia contraído altas dívidas, a partir dos anos 1980 e intensificadas nos anos do Plano Real.
Em 2023, o superavit comercial do agronegócio totalizou quase US$ 150 bilhões, enquanto em 1994, esse valor foi de apenas US$ 10,7 bilhões.
O coordenador do Núcleo Econômico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Renato Conchon, comenta que, no mercado interno, o Plano Real foi preponderante para o crescimento do agronegócio brasileiro, com reflexos positivos para a garantia da segurança alimentar no país. “Apenas para se ter uma ideia, em 1994, um salário-mínimo comprava o equivalente a uma cesta básica, agora em 2023, o salário-mínimo compra mais de 2 cestas básicas”, exemplifica Conchon.
“É claro que ao longo do período houve aumentos reais — acima da inflação — que impulsionaram o poder de compra dos brasileiros, mas a estabilidade da moeda propiciou um barateamento nos custos do setor que, por sua vez, aumentou a produção de alimentos no Brasil”, acrescenta o coordenador.
Em 1980, a produção total de grãos no país foi de 50 milhões de toneladas, com poucas variações ao longo da década. Em 1994 — ano da implementação da moeda — a produção subiu para 76 milhões de toneladas. Passados 30 anos, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma safra em 2023/24, de 294 milhões de toneladas.
A mesma avaliação faz o vice-presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), Marcio Milan, segundo quem, com consumidores podendo planejar suas compras, as idas ao supermercado ficaram mais tranquilas.
Considerados os grandes vilões dos tempos de hiperinflação, com suas maquininhas de remarcar preço que mais pareciam armas, os supermercados viviam uma relação tensa com os consumidores e, por vezes, com os próprios governos. “Fomos muito pressionados pelos Governos para segurar preços. O setor era visto como um dos vilões da inflação; o culpado pela recessão econômica porque era no ambiente dos supermercados que o consumidor se deparava com o aumento de preços e com a perda real do poder de compra”, explica Milan.
Desde a criação do Plano Real, os supermercados expandiram a atuação no cenário econômico e hoje somam mais de 414 mil lojas em todo o país, com mais de 9 milhões de colaboradores. O setor também representa 9,2% do PIB e faturou 1 trilhão de reais em 2023, com suporte para atender aos 30 milhões de consumidores que entram nas lojas todos os dias. “O real, ao conseguir manter a inflação baixa, promover crescimento econômico e trazer um alívio para os empresários do setor, é, sem dúvida, um dos aspectos importantes desde a entrada da moeda em vigor”, conclui Milan.
No aniversário de 30 anos da moeda, o coordenador da CNA acredita que a grande reinvenção do agro, após a estabilidade trazida pelo real, é a sustentabilidade. O especialista explica que, com o cenário mais estável, o papel do setor é priorizar a produção de alimentos, fibras para tecidos e biocombustíveis. “Essa mudança de visão será o impulsionador da economia brasileira, tal como ocorreu em 1994”, comenta.
por Setceb | jun 20, 2024 | Uncategorized
As ações previstas no termo representam oportunidades de desenvolvimento do setor de transporte RODOVIáRIO de cargas no Brasil.
Com a intenção de fortalecer ações e projetos do setor de transporte rodoviário e multimodal de cargas, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e a Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística) assinaram, nesta quarta-feira (19/6), o Termo de Parceria do Programa ANTT Coopera. O ato aconteceu na sede da NTC&Logística em Brasília (DF).
Segundo o diretor da ANTT Guilherme Theo Sampaio, o termo de cooperação foi elaborado pensando na aproximação dos órgãos. “Quando esse Coopera foi gestado, frisamos o diálogo para que possamos escutar as necessidades do setor e, assim, possibilitar que a nossa regulação seja eficiente. Vamos analisar as necessidades de todas as partes para melhorar a experiência do usuário”, frisou.
A parceria firmada entre a ANTT e a NTC, viabilizada pelo programa ANTT Coopera, representa uma oportunidade significativa para o desenvolvimento do setor de transporte rodoviário de cargas no Brasil. As ações propostas no termo preveem um canal permanente para a troca de informações, levantamentos constantes sobre as necessidades da NTC&Logística e da ANTT, compartilhamento de pesquisas do setor, tendo como referência dados do RNTRC e a discussão sobre os parâmetros para a POLíTICA Nacional de Pisos Mínimos de Frete. Além disso, as entidades, juntas, estabelecerão estratégias para entender e combater a escassez de motoristas (CNTA e CNT).
Em seu pronunciamento, o superintendente de Serviços de Transporte Rodoviário e Multimodal de Cargas (Suroc/ANTT), José Aires Amaral, afirmou que, embora o termo esteja sendo assinado agora, a parceria entre ANTT e NTC já existe, e a sociedade colhe os frutos disso. “Nossa intenção é estreitar ainda mais os laços com o setor regulado para que tenhamos desenvolvimento e melhoria contínua. Esse termo foi construído de forma conjunta, visando a excelência”, declarou Amaral.
Para o presidente da NTC&Logística, Eduardo Ferreira Rebuzzi, é uma grande satisfação ver o trabalho consolidado. “Temos o compromisso de seguir dialogando e fortalecendo o transporte de cargas do Brasil, que é um setor essencial para a economia, para a produção e também contribui para a melhoria da qualidade de vida da população”, afirmou.
O evento contou com membros da diretoria da CNT, NTC&Logística e ANTT, colaboradores e representantes de diversas entidades do setor de todo o Brasil.
Parcerias Institucionais – O Programa ANTT Coopera é um dos instrumentos de parceria e cooperação da ANTT, regido pela Resolução 6.008/2023 e coordenado pela Assessoria de Relações Parlamentares e Institucionais – AESPI, para promover a articulação e o relacionamento institucional da Agência com entidades públicas e privadas. O programa visa estabelecer cooperações técnicas, focando no intercâmbio de conhecimento e experiências, para alcançar os resultados estabelecidos no mapa estratégico da ANTT, além de fortalecer as instituições, racionalizar recursos, desburocratizar os trâmites processuais e contribuir para o desenvolvimento técnico-científico no setor de transportes terrestres brasileiro.
por Setceb | jun 20, 2024 | Uncategorized
Um amplo estudo realizado pelo American Transportation Research Institute (ATRI) mostra os seis principais desafios enfrentados pelas mulheres no transporte de cargas nos Estados Unidos. Os dados fazem parte do estudo “Identificando e Mitigando os Desafios Enfrentados pelas Mulheres Caminhoneiras” ( Identifying and Mitigating the Challenges Faced by Women Truck Drivers), publicado nessa semana.
A pesquisa recebeu respostas de milhares de mulheres que atuam como motoristas de caminhão nos Estados Unidos, além daquelas que ainda estão passando por escolas de treinamentos e das que atuam nas áreas administrativas de transportadoras.
“A pesquisa da ATRI dá voz às milhares de mulheres motoristas de caminhão que encontraram carreiras bem-sucedidas e satisfatórias neste setor e incentiva outras mulheres a considerarem empregos como motoristas de caminhão”, disse Emily Plummer, motorista profissional da Prime Inc. RECOMENDADO 10% dos caminhões trafegam com excesso de peso
De acordo com a pesquisa, o interesse das mulheres na profissão de caminhoneira nos Estados Unidos se dá pela remuneração, com uma média salarial superior a outros empregos que não exigem tanta qualificação.
A análise também concluiu que as transportadoras que implementam iniciativas de recrutamento e retenção específicas para mulheres têm um percentual mais elevado de mulheres motoristas (8,1%) do que aquelas que não as têm (5,0%).
De acordo com o estudo, existem seis desafios principais para as mulheres no setor de transportes, que podem ser vistas no quadro abaixo:
As mulheres entrevistadas também pontuaram outras razões pelas quais elas acreditam que é um desafio ser mulher dentro do setor:
Atitude em relação às mulheres/desrespeito 31,3% Segurança pessoal 12,6% Acesso ao banheiro 12,2% Habilidades físicas 11,6% Não é mais desafiador para as mulheres 6,6% Ter que provar seu valor 5,7% Tempo em casa/crianças 5,6% Equipamentos/manutenção 3,2% Higiene/menstruação 2,9% Outros 8,3% Entre as vantagens, como já citado, está a média salarial e paridade salarial entre gêneros. No setor de transportes, as mulheres recebem salários 1% menores do que o dos homens, enquanto em outros empregos no geral a diferença é de 16%.
“Este estudo fornece um roteiro importante para a indústria aumentar o número de mulheres motoristas. Obtivemos um tremendo sucesso e maior segurança com nossas motoristas e acreditamos que outras pessoas que utilizarem esta pesquisa também terão sucesso”, disse Joyce Brenny, presidente e CEO da Brenny Transportation.
Os dados completos da pesquisa podem ser acessados no link https://truckingresearch.org/2024/06/identifying-and-mitigating-the-challenges-faced-by-women-truck-drivers/.
por Setceb | jun 20, 2024 | Uncategorized
Em decisão unânime, comitê do Banco Central ignora críticas do presidente Lula a Roberto Campos Neto e interrompe ciclo de queda da Selic.
Apesar das críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Banco Central e ao presidente da instituição, Roberto Campos Neto, o Comitê de Política Monetária (Copom) procurou dar sinais de que não existe racha no grupo de nove diretores, por enquanto. Pombos e falcões — jargão econômico para os mais lenientes com a inflação e os mais duros, respectivamente — demonstraram união e decidiram, de forma consensual, interromper o ciclo de queda da taxa básica da economia (Selic) iniciado em agosto de 2023. Com isso, os juros básicos continuam em 10,50% ao ano, pelo menos, nos próximos 45 dias.
Com a decisão, o Brasil consolida-se na vice-liderança global dos juros reais (descontada a inflação), ficando atrás apenas da Rússia em um ranking de 40 países elencados pela MoneYou.
Durante o dia, o mercado refletiu o clima de tensão formado após as declarações de Lula, na terça-feira. O temor era de uma nova divisão entre os cinco diretores indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e os quatro nomeados por Lula, como ocorreu na reunião de maio. O dólar seguiu pressionado, chegando a ser negociado a R$ 5,48 — maior patamar desde janeiro de 2023 —, mas encerrou o pregão cotado a R$ 5,44 para a venda, com alta de 0,14% sobre a véspera. A Bolsa de Valores de São Paulo (B3) registrou alta de 0,53%, fechando em 120.261 pontos.
A decisão do Copom era esperada pela maioria dos analistas e deve tranquilizar, momentaneamente, os mercados. “O BC tomou a decisão mais do que acertada, de forma esperada, apesar das falas de Lula na terça-feira. Isso traz um pouco de tranquilidade para os próximos dias, mas joga, agora, a responsabilidade de dar uma resposta de volta para o Congresso e para o Executivo. Eles precisam dar um encaminhamento para a questão fiscal minimamente crível”, avaliou Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. Para ele, a taxa de juros seguirá elevada por um período prolongado porque o governo, “aparentemente, não entendeu que, sem resolver de uma forma muito crível a questão fiscal, não vai conseguir mexer adequadamente na taxa de juros”.
ECO-Copom(foto: Valdo Virgo)
“Serenidade”
No comunicado formal, o Copom informou que optou, por unanimidade, interromper o ciclo de queda de juros porque os cenários global e doméstico estão incertos e desafiadores, “demandando serenidade e moderação na condução da política monetária”, devido, em grande parte, à desancoragem das expectativas de inflação. Apesar de não sinalizar tendência para a próxima reunião, em 30 e 31 de julho, o comitê destacou que a decisão “é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante, que inclui o ano de 2025”.
Economistas de dentro e de fora do Brasil concordam que Lula exagerou nas críticas ao BC e a Campos Neto. Contudo, reconhecem a razão em demonstrar indignação com o fato de o presidente do BC ter aceitado o convite do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para um jantar no Palácio dos Bandeirantes, na semana passada. “Foi uma pisada de bola gigantesca, Campos Neto não precisava ter ido ao jantar, especialmente agora, que a relação entre ele e Lula tinha melhorado. Isso só serviu para criar mais ruídos desnecessários sobre a autonomia do Banco Central”, disse um economista estrangeiro que pediu anonimato.
O economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, destacou que a decisão de encerrar o ciclo de afrouxamento dos juros foi o que o mercado esperava e, como um segundo sinal positivo, se deu de forma consensual. “Conforme os modelos do Banco Central, mantendo a Selic parada em 10,5%, mesmo assim, não será possível atingir o centro da meta de 3%. Então, o sinal é conservador. O comunicado não trouxe mais novidades, então, acho que é uma tentativa do Banco Central sinalizar compromisso com o centro da meta”, acrescentou.
Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, também destacou que o comunicado reforça o compromisso do BC com o cumprimento da meta de inflação. “O ambiente se tornou mais complexo, os fundamentos ligados à inflação se deterioraram marginalmente desde o último Copom, as projeções de inflação do mercado e do próprio Copom subiram, o que sugere uma cautela maior do BC. Foi isso que o Copom optou por fazer”, explicou. Ele informou ainda que, depois da decisão do Copom, manteve a projeção de que a taxa Selic ficará em 10,50% até o fim de 2025. “A decisão de hoje foi consistente com o nosso cenário”, completou.
Críticas
Assim como a presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), a Confederação Nacional da Indústria e a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), criticaram a decisão do Copom. Para a deputada petista, “não há justificativa técnica, econômica e muito menos moral para manter a taxa básica de juros em 10,5%”.
Em nota, o presidente da CNI, Ricardo Alban, classificou a decisão do Copom como “inadequada”, e destacou que a manutenção dos juros no atual patamar vai impor restrições adicionais à atividade econômica. Para a Firjan, o fim do ciclo de cortes da Selic, além de prejudicar a recuperação da economia, “limita a expansão dos investimentos no país”.