A carga tributária segue como o principal obstáculo à eficiência logística no Brasil — e a tendência é que ganhe ainda mais peso com o avanço da reforma tributária. Levantamento da Associação Brasileira de Operadores Logísticos, em parceria com a ILOS, aponta que 89% dos operadores logísticos consideram a redução de tributos como prioridade número um, superando temas como infraestrutura (80%) e segurança (74%).

O dado reforça uma mudança estrutural já em andamento no setor. Com a reformulação do sistema tributário, especialistas avaliam que a organização das cadeias logísticas deve passar por transformações relevantes, com impacto direto nos custos, no fluxo de caixa e na configuração das redes de distribuição.

Eficiência passa a guiar decisões logísticas

A reforma sobre o consumo, que inicia sua fase de transição a partir de 2026, substitui tributos como ICMS, ISS, PIS e Cofins por um modelo baseado na CBS e no IBS, com incidência no destino. Na prática, isso reduz o peso dos incentivos fiscais e desloca as decisões estratégicas para critérios mais operacionais.

Segundo especialistas, empresas tendem a rever a localização de centros de distribuição, rotas e malhas logísticas com foco em eficiência, nível de serviço e redução de custos — e não mais em benefícios fiscais regionais. Esse movimento pode alterar significativamente o desenho logístico no país.

Infraestrutura segue como gargalo central

Mesmo com a mudança no modelo tributário, os desafios estruturais permanecem. O estudo mostra que 91% dos operadores ainda apontam o sistema rodoviário como principal prioridade de investimento.

Esse dado reforça a forte dependência do Brasil do transporte rodoviário de cargas, enquanto outros modais seguem com menor relevância: portos (24%), ferrovias (23%) e acessos portuários (16%). A concentração da matriz logística continua sendo um fator limitante para ganhos de eficiência mais amplos.

Custos pressionam empresas no curto prazo

Durante a fase de transição, a expectativa é de aumento de pressão sobre custos, principalmente para empresas menos estruturadas. Isso porque o novo modelo pode elevar a carga tributária efetiva, especialmente no setor de serviços, que possui alta dependência de mão de obra — um fator que não gera créditos tributários relevantes.

Com isso, margens tendem a ficar mais apertadas, exigindo maior controle financeiro e eficiência operacional por parte das transportadoras e operadores logísticos.

Mudança acelera seleção natural no setor

Além da carga tributária, o levantamento também destaca outras demandas importantes, como estímulos à contratação, redução das taxas de juros e melhorias no ambiente regulatório.

No geral, o cenário indica que a reforma tributária deve acelerar um processo de ajuste já em curso no setor logístico brasileiro. Empresas mais estruturadas, com maior maturidade operacional e capacidade de adaptação, tendem a ganhar competitividade, enquanto outras podem enfrentar dificuldades para absorver as mudanças.

A convergência entre alta carga tributária e limitações de infraestrutura reforça um ponto central: mais do que nunca, eficiência operacional deixará de ser diferencial e passará a ser condição básica para sobreviver no transporte rodoviário de cargas.