A frota de caminhões no Brasil segue entre as mais envelhecidas da América Latina, com cerca de meio milhão de veículos em circulação com mais de 25 anos de uso. Parte significativa desses caminhões ainda opera com tecnologias anteriores às normas básicas de emissão europeias, o que amplia impactos ambientais, operacionais e de segurança.

Nos últimos meses, no entanto, o tema ganhou novo fôlego. O governo federal avança na construção do Plano Nacional de Logística (PNL), que busca reposicionar o transporte rodoviário dentro de uma matriz mais equilibrada, ampliando o uso de ferrovias, hidrovias, cabotagem e portos, especialmente em longas distâncias.

Paralelamente, foi lançado o programa Move Brasil, com R$ 10 bilhões em crédito subsidiado para renovação de frota. Ao mesmo tempo, montadoras ampliam a oferta de veículos movidos a biometano, gás natural e eletricidade — muitos deles desenvolvidos no próprio país.

Apesar dos avanços, o desafio estrutural permanece. O Brasil ainda apresenta um dos maiores custos logísticos entre as principais economias do mundo, destinando, em média, 12,37% do faturamento das empresas para movimentação de mercadorias. Em comparação, os Estados Unidos operam com cerca de 8,5%, enquanto a China reduziu seu índice para 9,2%.

Grande parte desse custo está ligada à forte dependência do transporte rodoviário. Atualmente, cerca de 62% de toda a carga no país é movimentada por rodovias — percentual que pode chegar a 75% quando desconsiderado o transporte de minério de ferro.

Esse cenário se agrava diante de uma frota antiga, menos eficiente e mais suscetível a falhas. Caminhões com baixa tecnologia e manutenção precária elevam o risco de acidentes, aumentam o tempo de viagem e geram custos adicionais com paradas, congestionamentos e perda de carga.

Segundo estimativas do setor, o impacto financeiro da frota envelhecida chega a aproximadamente R$ 62 bilhões por ano, considerando fatores como acidentes, problemas de saúde relacionados à poluição e ineficiências operacionais.

A renovação, porém, esbarra em um obstáculo central: o custo. A substituição direta de veículos muito antigos por modelos zero-quilômetro é inviável para grande parte dos transportadores, especialmente autônomos. Por isso, especialistas defendem um modelo gradual de transição, baseado na chamada “escadinha”, em que veículos são substituídos progressivamente por modelos mais novos, incluindo o mercado de seminovos.

Nesse contexto, o acesso ao crédito se torna decisivo. A ausência de financiamento para veículos usados cria um gargalo na cadeia de renovação, impedindo que caminhões mais antigos sejam retirados de circulação de forma eficiente.

O programa Move Brasil, embora bem recebido, ainda é considerado insuficiente frente à dimensão do problema. Com alta demanda, cerca de 40% dos recursos já foram utilizados nos primeiros meses, o que reforça a necessidade de ampliação e continuidade da política ao longo dos próximos anos.

Outro ponto crítico é a inclusão dos caminhoneiros autônomos, que concentram a maior parte da frota mais antiga. Sem mecanismos específicos de acesso ao crédito, há o risco de que os benefícios fiquem concentrados nas grandes transportadoras, ampliando desigualdades no setor.

Do ponto de vista tecnológico, o Brasil não está atrasado. Já existem no mercado nacional caminhões movidos a biometano, biodiesel e eletricidade, além de soluções voltadas à eficiência operacional e redução de emissões. O principal desafio, portanto, não está na oferta, mas na velocidade de adoção dessas tecnologias.

O Plano Nacional de Logística também incorpora, pela primeira vez, a descarbonização como eixo estratégico. Ainda assim, especialistas apontam a necessidade de maior detalhamento, especialmente na definição de metas concretas de redução de emissões — fator essencial para atrair investimentos internacionais voltados à sustentabilidade.

As projeções indicam que, com políticas consistentes e de longo prazo, é possível reverter gradualmente o envelhecimento da frota até 2035. No entanto, o histórico de descontinuidade de programas no país acende um alerta: a renovação precisa deixar de ser uma iniciativa pontual e se consolidar como política de Estado.

Mais do que modernizar veículos, o desafio envolve melhorar a eficiência logística, reduzir custos e aumentar a competitividade do país. E, para isso, será necessário garantir continuidade, acesso ao crédito e inclusão de todos os elos da cadeia — especialmente os pequenos transportadores.