A informalidade no transporte rodoviário de cargas representa atualmente 43% do mercado brasileiro e provoca uma perda anual estimada em R$ 32,7 bilhões em arrecadação tributária, segundo levantamento da Associação das Administradoras de Meios de Pagamento Eletrônico de Frete (Ampef). O estudo mostra que práticas irregulares seguem amplamente presentes no setor e impactam diretamente a competitividade, a arrecadação pública e a estrutura do mercado logístico nacional.
De acordo com os dados, o transporte rodoviário movimenta cerca de R$ 818,6 bilhões por ano no país. Desse total, aproximadamente R$ 351,8 bilhões correspondem a operações realizadas de forma informal, enquanto R$ 466,9 bilhões estão vinculados ao mercado formalizado. O cálculo foi elaborado com base no consumo de diesel e em informações declaradas à Receita Federal.
Segundo a entidade, a diferença entre o volume financeiro movimentado e os valores oficialmente registrados gera perdas expressivas aos cofres públicos, considerando tributos federais, estaduais, municipais e encargos previdenciários. Parte desses recursos, de acordo com a associação, poderia ser revertida para investimentos em infraestrutura, fiscalização e políticas públicas voltadas ao setor.
Entre os principais fatores ligados à informalidade está a utilização da carta-frete, prática considerada ilegal, mas ainda recorrente em operações de média e longa distância. Nesse modelo, o caminhoneiro recebe um documento destinado ao custeio de despesas como combustível e alimentação, tendo acesso integral ao valor somente após a entrega da carga.
Na prática, o sistema limita a utilização do recurso a estabelecimentos credenciados e pode gerar perdas financeiras ao profissional no momento da conversão em dinheiro. Além disso, a ausência de pagamento formal prejudica a comprovação de renda do motorista, dificultando o acesso a crédito, financiamentos e demais serviços financeiros.
O estudo também aponta que apenas os impactos tributários e previdenciários relacionados à carta-frete geraram perdas entre R$ 8,9 bilhões e R$ 14,2 bilhões, considerando a atualização monetária até agosto de 2025.
Outro reflexo da informalidade está no desequilíbrio competitivo dentro do setor. Empresas e operadores que atuam fora das exigências legais conseguem reduzir custos ao evitar o pagamento de tributos e obrigações regulatórias, pressionando os preços praticados no mercado e reduzindo o valor médio do frete.
Esse cenário afeta diretamente a rentabilidade de caminhoneiros e transportadoras regularizadas, criando um ambiente de concorrência desleal e instabilidade comercial para quem atua dentro das normas.
O avanço da informalidade ocorre em um momento de forte pressão sobre os custos operacionais do transporte. Em março, o preço médio do diesel S-10 registrou alta superior a 13% em relação ao mês anterior, alcançando R$ 7,10 por litro, impulsionado pela valorização do petróleo no mercado internacional e por reajustes internos.
Como o combustível representa uma das principais despesas da operação logística, aumentos sucessivos no diesel acabam pressionando margens e, indiretamente, favorecendo práticas irregulares como alternativa para redução de custos.
Responsável pela maior parte da movimentação logística nacional, o transporte rodoviário de cargas segue como modal essencial para a economia brasileira, inclusive em cadeias integradas com ferrovias e navegação.
Para a Ampef, a ampliação do uso de meios eletrônicos de pagamento de frete regulamentados pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) surge como uma das principais ferramentas para combater a informalidade, aumentar a rastreabilidade das operações e trazer mais transparência para o setor.