GOVERNO CONFIRMA QUE VAI VETAR TRECHO QUE PERDOA MULTAS DE BLOQUEIOS GOLPISTAS NA MP DO FRETE

Enquanto o setor comemora a aprovação da MP do Frete, o Palácio do Planalto já sinalizou que parte do texto não deve sobreviver à sanção presidencial. Segundo o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), o presidente Lula vai vetar o dispositivo incluído pelo deputado Zé Trovão (PL-SC) que concede anistia a multas aplicadas contra caminhoneiros, transportadoras e outras pessoas físicas e jurídicas por bloqueios de rodovias registrados após a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. O próprio parlamentar bolsonarista confirmou ter recebido a informação e já articula tentar derrubar o veto no Congresso.

A proposta de perdão alcançaria multas aplicadas pela Justiça ou por órgãos administrativos, além de sanções civis, mesmo em casos em que os valores já estejam inscritos em dívida ativa. Para o governo, separar a conquista econômica dos caminhoneiros da tentativa de anistiar quem participou de atos contra o resultado das urnas é uma linha que não pode ser cruzada — daí a decisão de vetar especificamente esse trecho, preservando o restante do texto.

O núcleo da MP, que segue mantido, é o reforço do cumprimento do piso mínimo do frete por meio do CIOT, que passa a funcionar como mecanismo de bloqueio automático: a ANTT ficará impedida de liberar o registro sempre que o valor pactuado estiver abaixo da tabela oficial. Pela tabela vigente, o componente de deslocamento de uma operação padrão de carga geral varia de R$ 4,0031 a R$ 9,2466 por quilômetro rodado, dependendo do número de eixos do veículo, somado a valores fixos de R$ 436,39 a R$ 872,44 referentes a carga e descarga — para cargas frigorificadas, os valores sobem para uma faixa de R$ 4,7442 a R$ 10,9629 por quilômetro.

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, tratou a aprovação como fruto de anos de mobilização da categoria e de diálogo iniciado ainda no fim de 2025, quando representantes dos caminhoneiros levaram suas demandas ao governo. Segundo ele, a pauta remonta à greve de 2018 e à cobrança histórica por remuneração mínima que cubra os custos reais da operação. “Conseguiu aprová-la aos 48 do segundo tempo no Senado”, resumiu Boulos, em referência à aprovação ocorrida dois dias antes do prazo final de validade da medida, em 16 de julho.

Entre os pontos que devem seguir em vigor está a exigência de adiantamento mínimo de 70% do valor do frete aos transportadores autônomos, a atualização semestral da tabela de pisos, a revisão extraordinária sempre que o combustível variar 5% ou mais, e multas de até R$ 1 milhão para casos de reincidência no descumprimento das regras.

EMPRESAS DE TRANSPORTE RESPONDEM POR MAIS DE 68% DA MOVIMENTAÇÃO DE CARGAS NO BRASIL, APONTA ANTT

As Empresas de Transporte Rodoviário de Cargas (ETCs) são responsáveis por 68,45% de todo o volume de cargas transportado no Brasil, segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). O levantamento utiliza como indicador o TKU (tonelada por quilômetro útil), métrica que considera a quantidade de carga transportada e a distância percorrida.

Os números evidenciam o protagonismo das transportadoras na logística nacional. Em comparação, os Transportadores Autônomos de Cargas (TACs) representam 12% do volume transportado. Desse percentual, mais da metade corresponde a profissionais que atuam como agregados ou exclusivos de empresas de transporte, enquanto os autônomos independentes respondem por cerca de 5% da movimentação de cargas.

O levantamento também mostra que a participação operacional não está diretamente relacionada ao número de operadores cadastrados. Atualmente, o Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas (RNTRC) contabiliza aproximadamente 816,8 mil transportadores autônomos e 319,2 mil empresas de transporte.

Apesar de serem menos numerosas, as transportadoras concentram a maior parte da frota registrada. As ETCs possuem cerca de 1,97 milhão de veículos cadastrados no RNTRC, enquanto os transportadores autônomos somam aproximadamente 937 mil veículos.

Na avaliação da ANTT, os dados demonstram que a estrutura empresarial é responsável pela maior parcela da atividade de transporte rodoviário de cargas no país, reunindo a maior capacidade operacional e respondendo por mais de dois terços da produção medida em TKU.

Para o presidente do Sistema Transporte, Vander Costa, os indicadores refletem a importância estratégica das empresas para a economia brasileira.

“Quando falamos em transporte rodoviário de cargas, estamos falando de uma atividade que faz parte do dia a dia de toda a sociedade. É o transporte que conecta a produção, movimenta mercadorias e atende às diferentes necessidades da economia brasileira. Os dados mostram a dimensão da participação das empresas nessa atividade e a importância de garantir condições para que o setor continue operando com eficiência e contribuindo para o desenvolvimento do país”, afirmou.

Os dados reforçam o papel das empresas transportadoras na movimentação da economia nacional e destacam a relevância de políticas públicas que promovam um ambiente regulatório favorável, segurança jurídica e condições para o desenvolvimento sustentável do transporte rodoviário de cargas.

ESCASSEZ DE CAMINHÕES, E NÃO O DIESEL, JÁ DITA O PREÇO DO FRETE NO PAÍS, APONTA LEVANTAMENTO

Um novo estudo da plataforma Frete.com mostra que a lógica de formação de preços do transporte rodoviário de cargas no Brasil mudou de forma significativa no segundo trimestre de 2026. Mesmo com uma retração de 22% no volume nacional de fretes na comparação com o mesmo período do ano passado, o valor médio cobrado pelo transporte avançou 20% e bateu recorde histórico — sinal de que a disponibilidade de caminhões e motoristas, e não mais o preço do diesel, passou a ser o principal fator de pressão sobre as tarifas.

Segundo o relatório trimestral Frete Insights, o Índice Frete.com de Preços (IFP) subiu 5,3% frente ao primeiro trimestre de 2026 e fechou junho com alta mensal de 3,3%. Para dimensionar essa desconexão entre custo de combustível e preço final do frete, o levantamento mostra que, enquanto o diesel acumulou alta de 14% na comparação anual, o preço médio do frete avançou 21% no mesmo período — evidência de que o desequilíbrio entre oferta e demanda de caminhões, sobretudo nos corredores do agronegócio, tornou-se o fator determinante na formação das tarifas.

O estudo também mapeia uma reconfiguração geográfica do mercado: todas as regiões do país registraram queda no volume de fretes no trimestre, mas o Sudeste ampliou sua fatia do mercado nacional, saltando de 39% para 43% da movimentação total, enquanto Sul e Norte tiveram as maiores retrações, ambas de 34%. No recorte por estado, São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso concentraram 52% de todo o volume de fretes da plataforma.

O agronegócio segue como o principal cliente do transporte rodoviário brasileiro, respondendo por 42,9% do volume total de fretes do trimestre, mesmo com a retração geral. As maiores altas de preço, aliás, ocorreram justamente em rotas ligadas ao escoamento agrícola: o trecho entre Nova Mutum (MT) e Imbituba (SC) valorizou 72,3% na comparação com o mesmo período de 2025, seguido por Barro Alto (GO)–Laranjeiras (SE), com alta de 49,2%, e Campo Verde (MT)–Paranaguá (PR), com 48,6%.

O relatório ainda identifica os principais gargalos logísticos do país a partir da relação entre cargas disponíveis e caminhões: o corredor Coromandel (MG)–Santos (SP) lidera esse indicador, com 6,96 cargas para cada caminhão disponível, seguido por Porto dos Gaúchos (MT)–Rondonópolis (MT), com 5,11, e Luz (MG)–Santos (SP), com 4,56. Em contrapartida, alguns corredores com destino a portos da Região Sul já apresentam mais caminhões do que cargas, sinal de menor pressão sobre as tarifas nesses trajetos específicos.

JUROS ALTOS E AUMENTO DOS CUSTOS ELEVAM INADIMPLÊNCIA ENTRE TRANSPORTADORAS

O setor de transporte rodoviário de cargas enfrenta um cenário de maior restrição ao crédito. A inadimplência das empresas do segmento alcançou o maior patamar dos últimos 15 anos, chegando a aproximadamente 4,5% nas operações de crédito para pessoas jurídicas, índice significativamente superior ao observado em períodos de menor risco.

De acordo com especialistas do mercado financeiro, o aumento da inadimplência está relacionado a uma combinação de fatores, como a manutenção das taxas de juros em níveis elevados, o crescimento dos custos operacionais e a redução das margens de rentabilidade das transportadoras.

Além das dificuldades impostas pelo cenário econômico, a gestão financeira também tem sido apontada como um fator determinante para a saúde das empresas. A avaliação é de que muitas transportadoras concentram esforços na expansão das receitas, mas acabam deixando em segundo plano o controle do fluxo de caixa, dos custos operacionais e da capacidade de pagamento.

Esse contexto tem levado instituições financeiras a adotarem critérios mais rigorosos na concessão de crédito. Antes da aprovação de financiamentos, são analisados aspectos como demonstrações financeiras, endividamento, geração de caixa e a sustentabilidade das operações.

A seletividade também foi observada durante a execução do programa Move Brasil, voltado à renovação da frota. Mesmo com linhas de crédito subsidiadas, diversas solicitações não foram aprovadas por falta de condições financeiras para assumir novos compromissos.

Especialistas destacam que o acesso ao crédito deve estar alinhado ao planejamento financeiro da empresa e à sua capacidade de honrar as obrigações futuras. Nesse cenário, fortalecer a gestão, controlar despesas e investir em eficiência operacional tornam-se medidas essenciais para preservar a competitividade e garantir a sustentabilidade dos negócios no transporte rodoviário de cargas.

MONTADORAS CHINESAS LIDERAM MERCADO DE CAMINHÕES E AMPLIAM PRESENÇA GLOBAL

A indústria chinesa de veículos comerciais consolidou sua posição como uma das maiores do mundo e vem ampliando sua presença nos mercados internacionais. Impulsionadas por investimentos em tecnologia, eletrificação e expansão global, montadoras como FAW Jiefang, Dongfeng, Shacman, GWM e SAIC têm fortalecido sua participação no segmento de caminhões, ônibus e veículos comerciais.

Líder histórica do mercado chinês, a FAW Jiefang manteve a liderança nas vendas de caminhões médios e pesados, com mais de 280 mil unidades comercializadas em 2025 e cerca de 23% de participação no mercado interno. A fabricante também vem acelerando sua atuação no segmento de veículos de nova energia.

Outra gigante do setor é a Dongfeng Motor Corporation, que registrou crescimento nas vendas de caminhões comerciais e amplia os investimentos em modelos eletrificados, acompanhando a tendência mundial de descarbonização do transporte.

No segmento de pesados, a Shacman segue expandindo sua atuação internacional. A fabricante, que mantém parceria tecnológica de longa data com a alemã MAN, alcançou crescimento nas vendas em mercados estratégicos, como o Oriente Médio, além de ampliar significativamente a comercialização de caminhões elétricos e híbridos.

A SAIC Motor, maior montadora chinesa em volume de produção, também fortalece sua presença no mercado de veículos comerciais por meio das marcas Maxus e SAIC Iveco Hongyan, enquanto a Great Wall Motors (GWM) mantém a liderança no segmento de picapes e amplia sua atuação em caminhões pesados com tecnologias híbridas.

Entre os fabricantes especializados em caminhões leves, a JMC (Jiangling Motors Corporation) segue como uma das principais exportadoras chinesas, com forte presença em mercados internacionais.

Fabricantes de ônibus também ganham espaço

Além dos caminhões, o setor chinês de ônibus comerciais continua em expansão. Empresas como Yutong, King Long, Zhongtong e Ankai ampliam exportações e investem no desenvolvimento de veículos elétricos e movidos a hidrogênio.

A Yutong, considerada a maior fabricante de ônibus do mundo em volume de produção, mantém operações em dezenas de países e segue liderando o segmento de ônibus de nova energia.

Competitividade internacional

O avanço das fabricantes chinesas reflete uma estratégia baseada em escala de produção, inovação tecnológica e expansão internacional. Nos últimos anos, essas empresas passaram a disputar espaço em mercados tradicionalmente dominados por montadoras europeias e norte-americanas, oferecendo veículos com diferentes níveis de tecnologia e soluções voltadas para eficiência operacional.

A tendência também acompanha a transformação do setor de transporte, impulsionada pela eletrificação, conectividade e desenvolvimento de novas tecnologias para redução de emissões, fatores que vêm redefinindo o cenário global da indústria de veículos comerciais.

SOB PRESSÃO DE GREVE, SENADO APROVA PISO MÍNIMO DO FRETE E TEXTO SEGUE PARA SANÇÃO DE LULA

Pressionado pela mobilização de caminhoneiros nos portos do país, o Senado aprovou nesta terça-feira (14) o texto que institui piso mínimo para o frete do transporte rodoviário de cargas. A votação ocorreu de forma simbólica, sem registro individual do voto de cada senador, horas antes de a medida provisória perder a validade — o prazo se encerraria na quinta-feira (16). Por se tratar de um Projeto de Lei de Conversão (PLC), o texto aprovado segue agora para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Pela proposta aprovada, caberá à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) calcular e fixar os valores mínimos do frete, com base nos custos reais da atividade. Entre os itens que o órgão deverá levar em conta estão insumos, preço dos combustíveis praticado no mercado nacional, pneus, lubrificantes, manutenção, salários, encargos, seguros, tempo de carga e descarga, além de outros custos operacionais considerados pertinentes à operação.

A proposta nasceu em março, quando o texto original foi enviado ao Congresso pelo próprio Lula, num momento em que caminhoneiros autônomos já reclamavam da alta do diesel provocada pela guerra no Oriente Médio. O texto torna obrigatório o cadastramento das operações de transporte de cargas e a emissão do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT), além de prever penalidades — inclusive multas de até R$ 1 milhão — para transportadores que descumprirem o piso mínimo definido pela ANTT.

Um dos pontos que geravam mais resistência no Congresso, a fixação de um salário mensal de R$ 5.000 para caminhoneiros, acabou retirada do texto final. Na redação aprovada pelos senadores, a remuneração passa a ser definida por acordos e convenções coletivas de trabalho, e não mais por um valor fixo estabelecido em lei.

O texto também mantém o perdão a multas aplicadas a caminhoneiros em 2022, quando a categoria promoveu bloqueios de rodovias contra o resultado das eleições daquele ano. O senador Styvenson Valentim (Podemos-RN), relator da matéria no Senado, defendeu o dispositivo como uma forma de reparar o que classificou como uma espécie de “vingança” contra a categoria. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, porém, Lula deve vetar esse trecho — incluído no texto por emenda do deputado Zé Trovão (PL-SC) durante a tramitação na Câmara.

A aprovação foi resultado de negociações intensas na véspera da votação. Nesta segunda-feira (13), o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), afirmou que governo e oposição haviam chegado a “um bom acordo” para destravar a matéria, após reuniões com lideranças dos dois lados, entre elas as senadoras Teresa Leitão (PT-PE) e Tereza Cristina (PP-MS).