MOVE BRASIL IMPULSIONA RENOVAÇÃO DE FROTA E MERCADO JÁ DISCUTE NOVA ETAPA DO PROGRAMA

Após um início de ano marcado por expectativas de retração, o mercado brasileiro de caminhões começa a apresentar sinais de recuperação. Parte desse movimento está ligada ao Programa Move Brasil 2, que ampliou o acesso ao financiamento para renovação de frota e estimulou novas compras por parte das transportadoras. No entanto, a continuidade desse cenário dependerá da manutenção das linhas de crédito oferecidas pelo governo.

Na avaliação da Volvo Caminhões, o programa teve uma adesão acima do esperado e os recursos destinados às empresas de transporte estão praticamente comprometidos. A fabricante estima que aproximadamente 75% do orçamento reservado para esse público já tenha sido contratado, indicando que o saldo restante deve acabar em curto prazo.

Mesmo com a contratação acelerada dos financiamentos, os efeitos sobre o mercado ainda serão percebidos nos próximos meses. Isso porque boa parte dos veículos adquiridos continua em processo de fabricação e será entregue gradualmente, o que deve impulsionar os emplacamentos principalmente entre agosto e outubro.

O desempenho alcançado pelo programa já leva o setor a discutir os próximos passos. Para a Volvo, a principal incógnita é se haverá uma nova edição da iniciativa após o encerramento dos recursos atuais. A resposta poderá influenciar diretamente o ritmo das vendas no último trimestre do ano.

Outro ponto que continua limitando a expansão do mercado é o custo do crédito. Embora a recente redução da taxa Selic tenha sido recebida de forma positiva, a empresa considera que o impacto prático ainda é pequeno. Segundo o diretor-executivo de Caminhões da Volvo, Alcides Cavalcanti, os juros cobrados nas operações de financiamento permanecem elevados quando se considera o spread bancário, reduzindo o efeito da queda da taxa básica.

Enquanto as transportadoras avançam rapidamente na contratação dos financiamentos, a situação entre os caminhoneiros autônomos é diferente. Ainda há recursos disponíveis para essa categoria, mas muitos profissionais encontram dificuldades para atender às exigências das instituições financeiras. Questões relacionadas à documentação, histórico de crédito e nível de endividamento continuam sendo os principais entraves para a aprovação das propostas.

Na tentativa de ampliar o acesso ao programa, a Volvo, a Anfavea e o governo federal promovem uma ação voltada especificamente aos transportadores autônomos. O encontro reunirá fabricantes e agentes financeiros para apresentar as linhas de crédito disponíveis e esclarecer dúvidas sobre os critérios exigidos para obtenção do financiamento.

Apesar do momento mais favorável, a Volvo prefere manter uma postura cautelosa em relação ao fechamento de 2026. A fabricante ainda trabalha com a perspectiva de retração entre 10% e 15% nas vendas de caminhões no acumulado do ano, avaliação que poderá ser revista conforme a evolução do mercado e a definição sobre novas políticas de incentivo.

Além do segmento de veículos novos, o comportamento do mercado de seminovos também mudou nos últimos meses. A atualização da tabela Fipe, aliada à maior oferta de crédito para caminhões zero-quilômetro, reduziu parte da procura pelos usados e alterou a dinâmica das negociações.

Para a indústria, o desempenho dos próximos meses dependerá menos da demanda reprimida e mais da continuidade dos mecanismos de financiamento, considerados hoje um dos principais fatores para sustentar os investimentos na renovação da frota brasileira.

SEST SENAT ABRE 100 VAGAS GRATUITAS PARA FORMAÇÃO DE NOVOS MOTORISTAS PROFISSIONAIS NA BAHIA

A escassez de motoristas profissionais continua entre os principais desafios enfrentados pelo transporte rodoviário de cargas e de passageiros no Brasil. Em busca de ampliar a oferta de mão de obra qualificada, o Sest Senat abriu 100 vagas gratuitas em Feira de Santana (BA) por meio do Programa Mais Motoristas, iniciativa que financia a mudança de categoria da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e oferece capacitação para atuação profissional.

O programa contempla a mudança da habilitação para as categorias C, D ou E, permitindo que os participantes estejam aptos a conduzir caminhões, ônibus e outros veículos de maior porte, conforme a categoria obtida. Além da alteração da CNH, os selecionados receberão formação voltada às exigências do mercado de transporte.

As inscrições são gratuitas e serão realizadas em duas etapas. Até o dia 3 de julho, o cadastro é exclusivo para pessoas inscritas no Cadastro Único (CadÚnico). A partir das 8h do dia 4 de julho, as vagas remanescentes estarão disponíveis para o público em geral, com inscrições abertas até as 23h59 do dia 14 de julho, por meio da plataforma do Programa Mais Motoristas.

A seleção não ocorrerá por ordem de inscrição. O Sest Senat adotará critérios de prioridade definidos em edital, beneficiando inicialmente mulheres cadastradas no CadÚnico, seguidas pelos demais inscritos no programa social, mulheres em geral e, por último, os demais candidatos. Dentro de cada grupo, fatores como situação de desemprego e número de dependentes também serão considerados.

Para participar, é necessário ter no mínimo 19 anos, saber ler e escrever, possuir CPF, estar com a CNH válida e atender aos requisitos previstos no Código de Trânsito Brasileiro para a mudança de categoria. Também é exigido que o candidato não tenha mais de uma infração gravíssima registrada nos últimos 12 meses e que não esteja com o direito de dirigir suspenso.

O programa cobre praticamente todas as etapas necessárias para a obtenção da nova habilitação profissional, incluindo exames médicos e psicológicos obrigatórios, exame toxicológico, aulas práticas, locação do veículo utilizado na prova prática, inclusão da observação de Exercício de Atividade Remunerada (EAR) na CNH e o curso de qualificação profissional.

Por outro lado, despesas como deslocamento, alimentação, hospedagem, regularização de pendências na CNH, pagamento de multas e custos com novas provas, caso haja reprovação, serão de responsabilidade dos participantes.

A iniciativa faz parte dos esforços para ampliar o número de profissionais qualificados no setor de transporte, que enfrenta dificuldades para renovar sua mão de obra diante do aumento da demanda por motoristas habilitados. O resultado do processo seletivo será informado prioritariamente por e-mail, e os candidatos deverão acompanhar as comunicações e cumprir os prazos estabelecidos para garantir a vaga caso sejam convocados.

ESTUDO REVELA COMO A REFORMA TRIBUTÁRIA PODE REDESENHAR A LOGÍSTICA DE CARGAS NO BRASIL

A logística brasileira pode passar por uma das maiores mudanças das últimas décadas com a implementação da Reforma Tributária. Um estudo da fintech Qive indica que a substituição gradual do ICMS pelos novos tributos sobre o consumo tende a alterar a forma como empresas definem a localização de centros de distribuição e organizam suas operações de transporte, priorizando critérios logísticos em vez de benefícios fiscais.

A análise integra o estudo Panorama do Contas a Pagar e foi elaborada com base em 194,2 milhões de Conhecimentos de Transporte Eletrônico (CT-es) emitidos entre janeiro de 2024 e dezembro de 2025. Nesse período, as operações de transporte movimentaram 34,2 trilhões de quilos de mercadorias, geraram R$ 211 bilhões em fretes e resultaram em R$ 14,2 bilhões de arrecadação de ICMS.

Segundo o levantamento, a atual configuração logística do país ainda reflete a influência da tributação estadual. Em muitas situações, empresas optam por instalar centros de distribuição em determinadas unidades da federação para aproveitar incentivos fiscais, mesmo que isso represente percursos maiores e aumento da distância percorrida pelas cargas.

Com a entrada em vigor do novo modelo tributário, essa lógica tende a perder força. Como a cobrança passará a ocorrer no destino da mercadoria por meio do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), fatores como proximidade dos consumidores, infraestrutura rodoviária e tempo de entrega deverão ganhar maior peso nas decisões estratégicas das empresas.

Para Guilherme Martins, gerente de Produto e especialista em Reforma Tributária da Qive, a mudança deve provocar uma reorganização da malha logística nacional. Segundo ele, a escolha de novos centros de distribuição passará a ser orientada principalmente pela eficiência operacional, reduzindo a influência dos incentivos tributários estaduais.

O estudo também traça um retrato da atividade de transporte no país. O varejo lidera em quantidade de operações, com mais de 52 milhões de CT-es emitidos no período analisado. Apesar do elevado volume de viagens, o segmento registra um dos menores valores médios por frete, cerca de R$ 1,5 mil, característica associada à distribuição pulverizada e às entregas voltadas ao consumo.

Em sentido oposto, os setores de energia e agronegócio concentram operações de maior valor agregado. Os fretes ligados à cadeia energética apresentaram ticket médio superior a R$ 11 mil, enquanto as operações do agronegócio registraram média próxima de R$ 5,4 mil, refletindo o transporte de grandes volumes em longas distâncias.

Outro aspecto destacado pela pesquisa é a rapidez do ciclo financeiro no transporte de cargas. Diferentemente de outros segmentos do mercado corporativo, os pagamentos dos fretes costumam ocorrer em poucos dias e, na maioria das vezes, sem parcelamento. Segundo Martins, essa característica reduz o tempo disponível para identificar e corrigir inconsistências nos documentos fiscais antes da liquidação das operações.

O levantamento confirma ainda a concentração das atividades logísticas em São Paulo. Mais da metade dos CT-es emitidos no país teve origem no estado, com destaque para municípios como Cajamar, Guarulhos, Barueri e Sumaré, que concentram importantes centros de distribuição de transportadoras, operadores logísticos e empresas de comércio eletrônico.

Na avaliação da Qive, a Reforma Tributária deverá acelerar uma reorganização da logística nacional nos próximos anos. A expectativa é que decisões sobre localização de armazéns, definição de rotas e estrutura das redes de distribuição passem a ser orientadas cada vez mais pela eficiência operacional e pela redução dos tempos de entrega, e não mais pelas diferenças de tributação entre os estados.

REVISÃO DE CÁLCULO DA ANTT PODE IMPACTAR FUTURAS CONCESSÕES E PEDÁGIOS NAS RODOVIAS FEDERAIS

Os critérios utilizados para definir a remuneração dos investimentos nas concessões de rodovias federais voltarão ao centro do debate regulatório. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) abriu consulta pública para revisar a metodologia de cálculo do Custo Médio Ponderado de Capital (WACC), indicador considerado fundamental para o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos de concessão.

A discussão faz parte da Audiência Pública nº 12/2026, cujas contribuições podem ser enviadas entre 30 de junho e 13 de agosto. A proposta busca atualizar os parâmetros utilizados pela agência diante das mudanças ocorridas nos últimos anos no mercado financeiro, nas condições de crédito e no ambiente das concessões de infraestrutura.

Embora o tema seja essencialmente técnico, seus efeitos podem chegar ao dia a dia de transportadoras, embarcadores e usuários das rodovias. Isso porque o WACC é utilizado para definir a taxa de retorno dos investimentos realizados pelas concessionárias, influenciando a modelagem dos contratos e, consequentemente, a composição das tarifas de pedágio.

Na prática, esse indicador representa o custo médio dos recursos empregados em um projeto, considerando tanto o capital próprio das empresas quanto os financiamentos obtidos para executar obras e prestar os serviços previstos nas concessões.

Para a ANTT, a atualização da metodologia pretende tornar os cálculos mais aderentes à realidade econômica atual, criando condições para atrair novos investimentos sem comprometer o equilíbrio contratual. A agência avalia que a revisão poderá aumentar a previsibilidade regulatória e fortalecer a sustentabilidade financeira dos projetos de infraestrutura rodoviária.

O tema também desperta atenção do setor de transporte rodoviário de cargas. Alterações na forma de calcular a remuneração das concessionárias podem refletir, ao longo do tempo, na definição das tarifas de pedágio, um dos principais componentes do custo operacional das transportadoras. Mudanças nesses valores acabam influenciando os custos logísticos e podem repercutir na formação dos preços de mercadorias transportadas pelas rodovias federais.

A metodologia atualmente utilizada foi estabelecida em 2022 pelas Resoluções nº 6.002, 6.003 e 6.004 da ANTT. Com a revisão, a agência pretende atualizar os critérios adotados para acompanhar a evolução do mercado e das condições de financiamento da infraestrutura nacional.

Empresas, entidades do setor, especialistas e demais interessados poderão apresentar sugestões por meio da área de Participação Social disponível no portal da ANTT ou pela plataforma ParticipANTT até as 23h59 do dia 13 de agosto.

Além das contribuições eletrônicas, a agência realizará uma sessão pública híbrida da Audiência Pública nº 12/2026 no dia 24 de julho, às 10h, em Brasília. O encontro ocorrerá na sede da ANTT e também será transmitido ao vivo pelo canal oficial da agência no YouTube, ampliando a participação dos diferentes segmentos envolvidos na discussão.

PANORAMA DA INFRA S.A. MOSTRA QUE TRANSPORTE RODOVIÁRIO SEGUE DOMINANTE, MAS ENFRENTA DESAFIOS PARA GANHAR EFICIÊNCIA

Mesmo com os avanços das ferrovias, hidrovias e da cabotagem, o transporte rodoviário continua sendo a espinha dorsal da logística brasileira. O novo Panorama de Transporte Rodoviário de Cargas, divulgado pelo Observatório Nacional de Transporte e Logística (ONTL), confirma que os caminhões permanecem responsáveis pela maior parte da circulação de mercadorias no país e evidencia os principais desafios que o setor precisará enfrentar nos próximos anos.

Os dados mostram que o modal responde por 68,5% da movimentação nacional em tonelada-quilômetro (TKU) e por 84,3% do valor transportado em valor-quilômetro (VKU). Isso significa que, além de movimentar grandes volumes, o transporte rodoviário continua sendo o principal responsável pelo deslocamento de cargas de maior valor agregado, reforçando sua importância para praticamente todos os segmentos da economia.

O estudo também destaca que a extensa malha rodoviária brasileira permanece como um dos principais ativos da logística nacional. Atualmente, o país possui mais de 2,8 milhões de quilômetros de rodovias, embora apenas cerca de 31 mil quilômetros estejam concedidos à iniciativa privada, concentrando investimentos em manutenção, monitoramento e melhorias operacionais.

A distribuição das cargas acompanha o perfil econômico das diferentes regiões brasileiras. Enquanto soja e milho utilizam corredores rodoviários para chegar aos portos exportadores do Norte, do Sul e do Sudeste, produtos industrializados e cargas conteinerizadas reforçam a importância dos acessos ao Porto de Santos, principal complexo portuário do país. Já a produção mineral continua sustentando importantes corredores entre Minas Gerais e os terminais portuários do Rio de Janeiro.

Além da relevância econômica, o levantamento chama atenção para questões estruturais que afetam diretamente a competitividade do setor. Uma delas é o envelhecimento da frota dos transportadores autônomos. Enquanto empresas de transporte operam, em média, com veículos relativamente mais novos, os caminhões utilizados pelos TACs apresentam idade média superior a duas décadas, realidade que influencia custos operacionais, consumo de combustível, emissões e produtividade.

Outro indicador positivo apresentado pelo estudo refere-se ao mercado de trabalho. O transporte rodoviário de cargas encerrou 2025 com saldo superior a 46 mil novos empregos formais, refletindo a recuperação da atividade econômica e a demanda crescente por serviços logísticos. Apesar disso, o setor continua apresentando características históricas, com predominância de profissionais do sexo masculino, idade superior a 40 anos e ensino médio completo.

O relatório também aponta que a modernização do transporte passa pela adoção de novas políticas públicas e tecnologias. A expansão dos Pontos de Parada e Descanso (PPDs), a implantação gradual do sistema de pedágio eletrônico free flow e as novas exigências relacionadas aos seguros obrigatórios figuram entre as iniciativas que vêm transformando o ambiente regulatório do setor.

Por outro lado, a segurança viária permanece entre as maiores preocupações. Dados reunidos pela publicação mostram que veículos de carga estiveram envolvidos em pouco mais de um quarto dos sinistros registrados pela Polícia Rodoviária Federal em 2025. As perdas econômicas decorrentes desses acidentes chegaram a R$ 5,9 bilhões apenas no último ano, enquanto o prejuízo acumulado desde 2017 ultrapassa R$ 44 bilhões.

A agenda ambiental também ocupa espaço crescente nas discussões sobre o futuro do transporte. Como o modal rodoviário responde pela maior parcela do consumo energético do setor de transportes, o diesel continua sendo um dos principais responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa da atividade. Nesse contexto, programas voltados à eficiência energética, ao controle de emissões e à renovação da frota ganham importância para reduzir impactos ambientais sem comprometer a competitividade logística.

Mais do que apresentar estatísticas, o novo Panorama da Infra S.A. oferece um retrato dos desafios que acompanham o transporte rodoviário brasileiro. A manutenção da liderança do modal dependerá não apenas da ampliação da infraestrutura, mas também da renovação da frota, da melhoria da segurança nas estradas, da incorporação de novas tecnologias e da integração cada vez maior com outros modais de transporte, fatores considerados essenciais para elevar a eficiência da logística nacional.