ANUT CONTESTA MUDANÇA NOS MULTIPLICADORES TARIFÁRIOS E ESTIMA IMPACTO DE R$ 42 BILHÕES NO TRANSPORTE

A Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Carga (ANUT) entrou em rota de colisão com o Ministério dos Transportes por causa de uma mudança na fórmula de cálculo do pedágio para veículos comerciais. O ministério alterou o multiplicador tarifário aplicado por eixo de 1:2 para 1:3 — na prática, um caminhão de 8 eixos passa a ser cobrado como se tivesse 12 eixos, e um de 9 eixos, como se tivesse 13,5 eixos.

Segundo a ANUT, a mudança foi feita sem análise de impacto regulatório ou audiência pública específica sobre o tema. Em nota, o presidente da entidade afirmou que “não se pode alterar uma regra de uma política pública sem fazer análise de impacto regulatório”. A entidade estima que o novo multiplicador deve gerar R$ 42 bilhões em custos adicionais de pedágio ao longo da vigência de sete projetos de concessão rodoviária afetados: Rotas Gerais, Sertões, 2 de Julho, Portuária do Sul, Santa Catarina e Café.

O impacto tende a recair com mais força sobre o frete de produtos de baixo valor agregado, como arroz, sal, papel e celulose — casos em que o custo do pedágio pode chegar a dobrar ou até quintuplicar em relação ao preço final do produto transportado, segundo a associação. Para embarcadores e transportadoras, a mudança se soma a uma lista já longa de pressões de custo, como o diesel e os reajustes de pedágios regionais (a exemplo da BR-163), sobre a formação do frete.

Para as empresas associadas ao SETCEB, o caso é um lembrete de que reajustes tarifários feitos por decisão administrativa do Ministério dos Transportes — sem consulta pública prévia — podem alterar substancialmente a conta do pedágio de uma hora para outra, o que reforça a importância de acompanhar de perto as movimentações regulatórias em cada corredor rodoviário utilizado.

AVANÇO DO E-COMMERCE CRIA NOVO CICLO VIRTUOSO NA DEMANDA POR TRANSPORTE DE CARGAS LEVES

O crescimento do comércio eletrônico está gerando o que executivos do setor vêm chamando de “ciclo virtuoso” na demanda por transporte de cargas leves. Segundo Alexandre Clemes, executivo do setor automotivo/logístico, a expansão das entregas de última milha (last mile) tem impulsionado a demanda por veículos comerciais leves, como o Fiat Fiorino, com projeção de salto na produção de vans do tipo Ducato de cerca de 3.800 para 5.100 unidades por ano.

Um fenômeno notado é que muitos entregadores autônomos — pessoas físicas que começam fazendo entregas com veículo próprio como fonte de renda extra — acabam evoluindo para pequenos empresários do transporte, comprando veículos de carga usados para ampliar sua capacidade de entrega. Esse movimento realimenta a demanda por veículos comerciais leves e aquece toda a cadeia de revenda, manutenção e financiamento desses veículos.

Embora o comércio tradicional ainda responda pela maior fatia das entregas, a tendência de crescimento acelerado do last mile é vista como um dos fatores estruturais que devem sustentar a demanda por veículos de carga leve nos próximos anos.

Para transportadoras associadas ao SETCEB que atuam também com distribuição urbana e last mile na Região Metropolitana de Salvador e no interior baiano, a tendência sinaliza uma janela de oportunidade de diversificação de receita, ainda que a maior parte da frota de cargas do sindicato esteja concentrada em veículos pesados voltados ao transporte de longa distância.

EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS AO MÉXICO CAEM 42,5% NO PRIMEIRO SEMESTRE, APONTA CNI

Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado nesta quinta-feira (23/07), mostra que as exportações brasileiras para o México caíram 42,5% no primeiro semestre de 2026 em comparação com a média dos três anos anteriores — uma perda estimada em US$ 91,5 milhões. Com o resultado, o Brasil passou a figurar entre os cinco países mais afetados no mundo entre aqueles que não têm acordo de livre comércio com o México.

A causa apontada pela CNI é o “Programa de Protección para las Industrias Estratégicas”, implementado pelo governo mexicano em janeiro de 2026, que elevou os impostos de importação em 1.463 códigos tarifários, com alíquotas superando 50% em alguns casos.

Os setores mais afetados foram veículos automotores (-51,8%), produtos de borracha e plástico (-9,1%), metalurgia (-8%), couros e calçados (-7,4%), químicos (-5,9%), celulose e papel (-5,8%) e máquinas e equipamentos (-5,6%). A CNI destaca que 78,1% da queda correspondem a bens intermediários — insumos usados por outras indústrias ao longo da cadeia produtiva —, o que amplia o efeito cascata sobre a produção interna.

A entidade defende a isenção dos produtos brasileiros nesse programa mexicano e o avanço em negociações para um acordo comercial bilateral, que segundo estimativas poderia adicionar US$ 13,8 bilhões ao PIB conjunto dos dois países.

Para o transporte rodoviário de cargas, o dado interessa porque reflete o quadro mais amplo de comércio exterior brasileiro: quedas de exportação em cadeias industriais como automotiva, química e de celulose tendem a reduzir, com alguma defasagem, o volume de cargas que essas indústrias despacham para portos e centros de distribuição — outro sinal, ao lado do tarifaço americano, de que o comércio exterior segue como ponto de atenção para o volume de fretes nos próximos meses.

SIMPAR VENDE TERMINAL CS PORTO ARATU, NA BAHIA, POR R$ 1,8 BILHÃO

O Grupo Simpar, uma das maiores holdings de transporte e logística do país (controladora de empresas como JSL e Vamos), anunciou a venda de 100% da HSIM Participações e Holding Ltda., empresa que controla o terminal portuário CS Porto Aratu, na Baía de Todos os Santos, na Bahia. A compradora é a ICTSI Americas B.V., subsidiária do grupo filipino International Container Terminal Services.

O valor da operação é de R$ 1,8 bilhão (enterprise value), sendo R$ 750 milhões referentes ao valor do patrimônio (equity value). Do total, R$ 650 milhões serão pagos no fechamento do negócio e R$ 100 milhões ficam condicionados ao cumprimento de metas de desempenho em até 18 meses (mecanismo de earn-out). A conclusão da venda ainda depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e do poder concedente do terminal.

Segundo a Simpar, o grupo investiu cerca de R$ 900 milhões na modernização do terminal nos últimos anos, o que multiplicou por cinco sua capacidade operacional, hoje em 9,5 milhões de toneladas por ano. O CS Porto Aratu atua como uma plataforma voltada ao corredor agrícola do Matopiba (região que engloba partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), funcionando como um dos principais canais de escoamento de grãos e outras cargas do agronegócio do Nordeste para o mercado externo.

Para o setor de transporte rodoviário de cargas da Bahia, a mudança de controle de um terminal tão relevante quanto o de Aratu é um ponto de atenção direto: qualquer alteração na estratégia comercial ou operacional do porto sob o novo controlador — a ICTSI, que já opera terminais em outros países — pode afetar volumes de carga, prioridades de atendimento e negociações com as transportadoras que hoje fazem o transporte rodoviário até o terminal.

PROGRAMA DESPOLUIR ULTRAPASSA 5,3 MILHÕES DE INSPEÇÕES E REFORÇA A SUSTENTABILIDADE NO TRANSPORTE

Criado para incentivar práticas mais sustentáveis no transporte rodoviário, o Programa Despoluir atingiu um marco histórico ao superar 5,3 milhões de avaliações ambientais em veículos movidos a diesel. Prestes a completar 19 anos de atuação, a iniciativa amplia seu papel no setor ao utilizar as informações coletadas para apoiar empresas na gestão das frotas e fornecer subsídios para estudos e políticas públicas voltadas à mobilidade sustentável.

Desde o lançamento, em julho de 2007, o programa evoluiu de uma ação voltada exclusivamente ao controle das emissões para uma plataforma de apoio técnico aos transportadores. Além de monitorar o desempenho ambiental dos veículos, o Despoluir orienta empresários e motoristas sobre manutenção preventiva, eficiência operacional e redução do consumo de combustível.

Atualmente, a iniciativa está presente em todo o território nacional por meio de uma rede formada por 24 federações do transporte e 115 unidades de atendimento, que realizam os serviços diretamente em empresas, centros logísticos e pontos estratégicos das rodovias.

Em 2025, foram realizadas mais de 434 mil avaliações ambientais, contemplando aproximadamente 232 mil veículos e beneficiando 12.208 transportadores, entre empresas e caminhoneiros autônomos. Ao longo de sua trajetória, o programa já prestou atendimento a mais de 55 mil transportadores, considerando pessoas físicas e jurídicas.

SERVIÇOS AUXILIAM NA REDUÇÃO DE CUSTOS E NA PRESERVAÇÃO AMBIENTAL

Entre as principais atividades oferecidas está a Avaliação Veicular Ambiental (AVA), que verifica o nível de emissão de poluentes dos motores a diesel. A inspeção permite identificar problemas na combustão e orientar correções que ajudam a reduzir emissões, melhorar o rendimento do veículo e diminuir o consumo de combustível.

Outra frente de atuação é a Avaliação da Qualidade do Diesel (AQD), responsável por analisar se o combustível utilizado atende às especificações exigidas. O procedimento também contribui para prevenir danos mecânicos e evitar o aumento da emissão de poluentes.

Desde que esse serviço foi implantado, o programa já analisou 3.705 amostras de diesel, sendo a maior parte referente ao diesel S-10, combustível que possui menor teor de enxofre e gera menor impacto ambiental.

INFORMAÇÕES PASSAM A APOIAR A GESTÃO DO SETOR

Com milhões de registros acumulados ao longo de quase duas décadas, o Despoluir inicia uma nova fase baseada na digitalização dos processos e no uso de ferramentas de análise de dados. A proposta é transformar o banco de informações gerado pelas avaliações em uma fonte de inteligência para transportadores, entidades do setor e gestores públicos.

A estratégia inclui a integração das bases de dados, automação de processos e ampliação do uso de plataformas de Business Intelligence (BI), permitindo análises mais precisas sobre o comportamento da frota nacional e contribuindo para decisões relacionadas à eficiência operacional e à sustentabilidade.

De acordo com a diretora executiva nacional do SEST SENAT, Nicole Goulart, a evolução tecnológica permitirá que o conhecimento acumulado pelo programa seja utilizado não apenas para acompanhar indicadores ambientais, mas também para fortalecer a competitividade das empresas e apoiar a formulação de políticas públicas voltadas ao transporte.

CAPACITAÇÃO DE EQUIPES GANHA PAPEL ESTRATÉGICO PARA AUMENTAR A EFICIÊNCIA NA LOGÍSTICA

Investir na qualificação dos profissionais tem se tornado um diferencial competitivo para empresas do setor logístico. Estudos internacionais apontam que programas estruturados de capacitação contribuem para aumentar a produtividade, reduzir falhas operacionais e diminuir custos, refletindo diretamente no desempenho das operações.

Levantamentos da Aberdeen Group e da Association for Supply Chain Management (ASCM/APICS) indicam que empresas que mantêm programas contínuos de treinamento conseguem reduzir em até 26% os erros operacionais, elevar em 17% a produtividade dos colaboradores e diminuir em até 12% os custos logísticos.

Os ganhos são percebidos em diferentes etapas da cadeia logística, como separação de pedidos, conferência de mercadorias, gestão de estoques e utilização de sistemas de gerenciamento, entre eles WMS, TMS e ERP.

QUALIFICAÇÃO TAMBÉM CONTRIBUI PARA REDUZIR CUSTOS

Além de melhorar a eficiência operacional, a capacitação favorece uma gestão mais eficiente dos recursos das empresas. A adoção de boas práticas reduz retrabalhos, minimiza perdas causadas pelo manuseio inadequado de cargas, melhora o planejamento da demanda e otimiza o uso dos modais de transporte.

Outro benefício está relacionado à gestão de pessoas. Dados da Society for Human Resource Management (SHRM) mostram que organizações que investem regularmente no desenvolvimento de seus colaboradores registram índices menores de rotatividade, além de fortalecer o engajamento das equipes e estimular a formação de novas lideranças.

RESULTADOS APARECEM NA PRÁTICA

Os efeitos da qualificação já podem ser observados em diferentes segmentos da logística.

Em uma operação nacional de comércio eletrônico, um programa de treinamento permitiu reduzir em 22% os erros de separação de pedidos, aumentar em 18% a velocidade das operações de picking e diminuir em **12% as reclamações relacionadas às entregas.

Já em uma empresa com frota própria, a capacitação de motoristas e gestores de transporte proporcionou redução de 15% no consumo de combustível, queda de 9% nas avarias e melhora nos índices de pontualidade das entregas.

SETOR EXIGE APRENDIZADO CONTÍNUO

Para Paulo Oliveira, head de Eventos da MundoLogística, acompanhar a evolução tecnológica do setor exige atualização constante dos profissionais.

Segundo ele, investimentos em automação, inteligência de dados e novas tecnologias somente geram resultados quando as equipes estão preparadas para utilizar essas ferramentas de forma estratégica.

Além dos avanços tecnológicos, os profissionais também precisam acompanhar mudanças regulatórias, novas exigências dos clientes e transformações no ambiente de negócios, fatores que influenciam diretamente a competitividade das empresas.

PROFISSIONAIS BUSCAM QUALIFICAÇÃO, MAS COBRAM MAIOR APOIO DAS EMPRESAS

Uma pesquisa realizada pela MundoLogística com mais de 3,5 mil profissionais, entre maio e junho de 2025, revelou que a maioria busca investir no próprio desenvolvimento, embora perceba pouco incentivo por parte das organizações.

Segundo o levantamento, 55% dos participantes realizaram cursos nos últimos seis meses, enquanto 58% afirmaram que as empresas onde trabalham não investem em capacitação profissional.

O estudo também mostrou que 37% dos profissionais mudaram de emprego no último ano e 23% estão há mais de cinco anos sem receber uma promoção, indicando um mercado aquecido e desafios relacionados à retenção de talentos.

Apesar desse cenário, a percepção sobre o futuro permanece positiva: 85% dos entrevistados acreditam que existem boas oportunidades na logística, sendo que 65% associam esse crescimento à qualificação profissional.

MERCADO DEMANDA PROFISSIONAIS CADA VEZ MAIS PREPARADOS

A expectativa de expansão do setor reforça a necessidade de formação contínua. De acordo com a Pesquisa de Expectativa de Emprego do ManpowerGroup (Q2 2026), 57% das empresas dos segmentos de Comércio e Logística pretendem ampliar seus quadros de funcionários.

Ao mesmo tempo, muitas organizações ainda enfrentam dificuldades para incorporar novas tecnologias, especialmente relacionadas ao uso da inteligência artificial, devido à falta de profissionais capacitados e à necessidade de desenvolver novas competências.

Nesse contexto, especialistas defendem que investir no desenvolvimento das equipes deixou de ser apenas uma ação de recursos humanos e passou a representar uma estratégia para aumentar a competitividade, melhorar a eficiência operacional e preparar as empresas para os desafios da logística moderna.